Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Se você já fez testes de listening de nível avançado, em que há dois ou três diálogos simultâneos ocorrendo e você tem que pescar informações periféricas, deve ter enfrentado aquela sensação de limiar, de corda esticada até onde dá, a ponto de arrebentar: você está acertando as questões, está conseguindo captar as palavras, mas sabe que um pouquinho mais rápido, um pouquinho, um tantinho mais difícil, e será um desastre total. Você precisa concentrar toda a sua atenção naquele áudio. Esquecer-se da sua respiração, esquecer-se dos colegas do lado, do ar-condicionado frio demais (ou de menos), dos pratos pra lavar quando chegar em casa. Só existe o áudio, apresentando um diálogo genérico e rápido. E difícil. E por isso mesmo altamente desafiador. À medida que o diálogo avança, você se enche de alegria por cada questão cuja resposta correta você consegue identificar, mas ao mesmo tempo, vai ficando tenso, seu peito começa a arfar, a pulsação sobe, os olhos param de piscar, porque não tem a menor ideia a respeito da próxima questão: serei capaz de compreendê-la? Conseguirei identificar o que disse Mrs. Jones a respeito da época do ano em que é mais conveniente comprar queijo suíço? E assim prossegue a prova. As vitórias se sucedem, mas muito custosas, porque o desconhecido parece sempre apontar no horizonte, como numa perseguição ao contrário. Até que a prova acaba, e só então você consegue inspirar profundamente e deixar todo aquele ar sair do seu corpo. Alívio. Alegria. Orgulho de si mesmo, por ter sido capaz de passar no teste. Aí você olha a folha de respostas e pensa: quase. Quase! Por muito pouco não fui reprovado!
O leitor já deve ter percebido que com essa historiazinha, pretendo ilustrar a experiência que foi ter lido O Som e a Fúria, mais famoso livro de William Faulkner. Não é exagero. Nas primeiras cinquenta páginas eu estava achando que não iria compreender nada do livro. Que terminaria a leitura e me veria forçado a admitir que não tinha gostado. Que Faulkner exagerara. Que não havia encontrado sentido na história.
Conheci Faulkner em 2010. Entre março e agosto daquele ano, li os quatro livros do americano que “constavam no meu currículo” até o mês passado: Luz em Agosto, espetacular porta de entrada para o universo do autor, que me fez rotulá-lo como gênio; Enquanto Agonizo, que me confirmou esta impressão; A Árvore dos Desejos, única incursão de Faulkner na literatura infantil (li para meu filho); e Santuário, único livro “comercial” de Faulkner, e mesmo assim, um livro bastante difícil.
Difícil, por falar nisso, é um advérbio facilmente aplicável ao verbo escrever, se é Faulkner quem escreve. Sua fama de escritor intrincado e complexo era conhecida por todos, e o próprio Faulkner se orgulhava disso. Numa das suas famosas rusgas com Hemingway, Faulkner disse que seu desafeto era conhecido por nunca ter usado uma palavra que fizesse o leitor consultar o dicionário. Hemingway respondeu: “Pobre Faulkner. Ele realmente acha que grandes emoções vêm de grandes palavras?”
Divago.
Como eu dizia, Faulkner foi um caso de amor à primeira vista. Fiquei fascinado com a maneira que ele escrevia, com seus personagens, com suas histórias. Passei a considerá-lo um dos meus escritores favoritos desde sempre. Passaram-se três anos, e nas minhas férias, no final de dezembro do ano passado, relutante, tirei O Som e a Fúria da prateleira do meu irmão.
Por que relutante? Achava que não iria gostar de O Som e a Fúria. Achava que iria me desencantar com aquele Faulkner quase mágico. Aquele não seria o Faulkner real, mas um que eu criara, fruto de um encanto passageiro, que durara os seis meses entre a leitura de Luz em Agosto e Santuário.
O Som e a Fúria é uma espécie de Crônica da Casa Assassinada, um dos meus livros favoritos. Conta a história da decadência dos Compson, tradicional família do sul dos Estados Unidos.
O livro é dividido em quatro partes. Na primeira parte, centrada no dia 7 de abril de 1928, acompanhamos os fatos sob a perspectiva de um deficiente mental, Benjy Compson. É tudo muito confuso, já que ele avança e volta no tempo livremente, aparentemente sem respeitar qualquer lógica. Em um momento, ele é uma criança, noutro um adulto, pra depois voltar a ser criança e testemunhar algum fato sobre o qual ele não consegue emitir qualquer juízo. Terminei a leitura certo de que não gostaria do livro.
A segunda parte se passa em 2 de junho de 1910. É narrada por Quentin Compson, irmão mais velho de Benjy, e que foi estudar em Harvard. É uma parte complicada, porque há muito fluxo de consciência. Quentin é claramente perturbado. Há muita culpa, muita confusão mental, e você ali, lendo e tentando decifrar o que acontece. Ele revive os momentos anteriores a sua partida para Harvard – a família teve que vender uma parte da propriedade para pagar seus estudos e ele se culpa por isso – e vaga pelo Campus de Harvard e pelas ruas de Cambridge.
“A mãe começou a chorar. ‘Se você acha ruim o Maury comer da sua comida, por que você não é homem o bastante para dizer isso na cara dele. Ridicularizar o Maury na frente das crianças, pelas costas dele.’ ‘Absolutamente, ora.’ Disse o pai. ‘Eu admiro o Maury. Ele é da maior importância para a minha consciência de superioridade racial. Eu não trocaria o Maury por uma tropa de mulas. Sabe por quê, Quentin.’ ‘Não senhor,’ disse Quentin. ‘Et ego in arcadia esqueci como se diz feno em latim.’ disse o pai. ‘Ora, ora.’ disse ele. ‘Eu estava só brincando.’ Ele bebeu e largou o copo e pôs a mão no ombro da mãe.”
“Quando a sombra do caixilho apareceu na cortina era entre sete e oito horas, e portanto eu estava no tempo de novo, ouvindo o relógio. Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios.”
Na terceira parte, que se passa em 6 de abril de 1928, conheci aquele que pra mim é um dos mais impressionantes personagens da literatura: Jason Compson, irmão de Quentin e de Benjy. Ele é muito, muito fulo com a vida. Seu ódio por não ser o que poderia ter sido atinge todos que o cercam. Ele é cruel, violento, amargo. Neste capítulo você começa a juntar melhor as peças e entender o livro, já que Jason deixa escapar muita coisa em sua irascibilidade.
“Voltei para a minha mesa e li a carta de Lorraine. ‘Amorzinho que pena que você não está aqui. Não tem festa boa quando meu amorzinho não está comigo estou morrendo de saudade.’ Deve estar, mesmo. Da última vez eu lhe dei quarenta dólares. Dei a ela. Nunca prometo nada a uma mulher, nem aviso a ela o que vou lhe dar. Com mulher é assim que se deve fazer sempre. Para ela ficar sempre na expectativa. Se você não conseguir encontrar nenhuma outra maneira de surpreendê-la, dê-lhe um soco na cara.”
A quarta parte se passa no dia 8 de abril de 1928, um dia após a primeira parte. É um Domingo de Páscoa, e Dilsey, uma das empregadas negras da família Compson, leva sua família e Benjy à igreja. O centro das atenções é Dilsey, mas nesta parte do livro, outros personagens ganham voz.
Feitos estes esclarecimentos sobre a estrutura do livro, preciso abordar novamente a minha relutância quanto à leitura de O Som e a Fúria. Eu havia esquecido que William Faulkner é um gênio, esta é a verdade.
Nunca um livro foi tão desafiador e ao mesmo tempo tão recompensador. Ler O Som e a Fúria é árduo, mas vale cada sílaba lida. Enquanto lia, eu lembrava muito dos exames de listening aos quais me referi no começo do texto. A cada página virada, o pensamento: não vou conseguir, não vou entender. E avançava, e aqui e acolá conquistava um prêmio: Ah!, então era isso! Ah!, ele está se referindo àquilo!
O Som e a Fúria tornou-se meu livro favorito de Faulkner e um dos meus livros preferidos. Também é um livro cuja releitura é imprescindível, e pretendo fazê-lo ainda neste ano.
Meu “conselho”, se é que alguém me pediu: prepare-se, pois o livro é muito louco mesmo. E difícil. Mas você não se arrependerá. Faulkner sabe contar uma história, sabe escrevê-la, sabe o que contar e o que não contar. Já que falei de Hemingway, ele dizia que nunca subestimava a inteligência do seu leitor, por isso não entregava nada pronto. Meu livro, dizia ele, é como um iceberg: apenas 20% está visível, e cabe ao leitor mergulhar e desvendar o restante.
O Som e a Fúria não é “É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”, como diz o verso de Macbeth que inspirou o livro. É um imenso iceberg num rincão inóspito. Se já é difícil ver os 20% por causa da nevasca e do terreno acidentado, imagine a parte submersa… Mas vale a pena, leitor, vale a pena.
Minha Avaliação:
5 estrelas em 5.
