2025 :  2º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO

DE

CAMILO CASTELO BRANCO

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«O Romance de Camilo»

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Resumo:

VOLUME  :  369 pp.; XVI cap.

VOLUME  II :  381pp.; XII cap.

VOLUME  III :  327 pp.; XIII cap.

«Que se não conformem com a análise espectral os discípulos de Pangloss: os que trazem às costas a opinião dos outros como uma mochila do regimento; os fetichistas do ídolo absoluto; os filhos desmiolados de papá, desatentos de tudo o que não seja o volante e a bola do seu clube; todos os lentaços e letrados, escaravelhos das ideias que andam pelo chão, e ainda aqueles que transformam os seus preitos em sacramentalidade -- não se conformem e fujam de ler este livro que pode provocar-lhes a erisipela.

Mas sempre lhes digo: a história literária não é uma ladainha, nem uma lixívia; antes uma prospecção. Escava-se no indivíduo até encontrar o escritor como se removem as entranhas do monte até pôr a nu o veio aurífero.»

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«Aqui está o que pretendi fazer escrevendo o Romance de Camilo: procurar o homem picado do génio e das bexigas, que até à idade madura passou as passas do Algarve, foi pai de dois filhos loucos, brigou, confessando-se plebeu, a coroa de visconde, matrimoniou-se no tarde com a pobre matrona desencaminhada do lar, era desdenhado das mulheres, contemptor de Deus e do seu semelhante, animal de nervos, irregular em tudo. Cometi esta empresa sem o mínimo preconcebimento e cuidadoso de não incorrer na excomunhão dos arciprestes da hiperdulia.»

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Entrevista transmitida no Rádio Clube Português, na rubrica "Perfil de um Artista", a 16 de Julho de 1957. Realização de Igrejas Caeiro.

(I) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 1/4)   duraçao: 9:50 m.

Conteúdo não suportado.

(II) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 2/4)

Conteúdo não suportado.

(III) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 3/4)

Conteúdo não suportado.

(IV) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 4/4)

Conteúdo não suportado.

Transcrição (a partir do minuto: 3:01) do vídeo [ parte 4/4 ]:

I. C. — Qual foi a razão que o levou a escrever O Romance de Camilo, essa obra monumental, que tem provocado tanta discussão?

A. R. — Bem. A obra, o Camilo é uma figura deformada; ele próprio se deformou. O Camilo recorda-me um pouco o gato, o gato velho que para enganar os ratos se enfarinhava. Ele, o Camilo começou por se enfarinhar, deformar a sua natureza toda. O Camilo foi um homem infeliz, realmente, em toda a linha.

Mas a grande, a grande infelicidade do Camilo, a grande desgraça de Camilo foi as mulheres não gostarem dele. As mulheres não gostavam de Camilo.

I. C. — Deu o que hoje chamamos um complexo!?

A. R. — Deu um complexo. Deu um complexo tremendo e toda a obra dele… Agora, dir-me-á: «Mas as figuras dele estão todas certas.» — Estão todas certas. É, realmente, ele, ele tinha um sentido de compreensão, que de uma ou duas, três mulheres que amou, ele tirou todas as outras. E estão todas certas, mas… mas…as mulheres não gostaram de Camilo. Toda a sua tragédia, a primeira, além da tragédia…, não falando na tragédia económica, que para ele foi secundária já…

I. C. — E talvez até útil, para fazer uma obra vasta…

A. R. — Ah, sim, ele se tivesse, se fosse, quando ele, quando o filho dele, Nuno, casou com uma herdeira rica, por malas-artes do próprio Camilo, que a foi… ajudou a raptar… O Camilo nesses anos não produziu coisa nenhuma, porque ajudou a comer a fortuna do filho.

I. C. — Portanto, estava satisfeito economicamente e não trabalhava.

A. R. — Exacto; é verdade.

I. C. — Mas, em todo o caso, ainda não me disse a razão por que se meteu a escrever O Romance de Camilo

A. R. — Bem, precisamente por isso, porque é uma figura, é uma figura…

I. C. — Que era preciso esclarecer.

A. R. — É uma figura apaixonante…

I. C. — Que era preciso esclarecer.

A. R. — … que eu tinha ideias particulares sobre ele. Ele, realmente, quando as ideias estão dentro de nós como uma fonte, é preciso dar-lhe vazão, não é? Este…, eu tinha ideias especiais sobre o Camilo…, maneiras de ver que nem o Alberto Pimentel, nem António Cabral, nem Dias da Costa, nem esses outros críticos, esses biógrafos que se ocuparam dele, como de nenhum escritor português, pareceu-me que nenhum deles o compreendeu. Eh…, não quer dizer que eu tenha acertado. Imagino que acertei, porque se não, realmente, não me teria abalançado [I. C. — com certeza!] a uma obra destas, mas, seja como for, foi realmente essa necessidade de dizer: Não! Tudo isto está, está errado. O edifício está…

I. C. — … mal construído.

A. R. — …está mal construído. Nós temos… e comecei pelo princípio. Eis a razão por que eu me realmente…

I. C. — Eu próprio beneficiei…,

A. R. — Ahaahh…

I. C. — porque troquei muitas impressões com o Mestre Aquilino, quando tive de realizar a minha interpretação do papel de Camilo.

A. R. — E muito bem…, e muito bem...

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… «A meia grosa de livros que escrevi foram de facto para mim, em tanto que obra de criação e exalçamento, como igual número de vinhas que plantasse. Nesta faina exaustiva tive de desatender à vida de relações, não cultivar como devia a amizade, remeter os meus à vis própria quando poderia com um pouco de arte, salamaleque, e o "quantum satis" da desvergonha cívica nacional, consagrada e triunfante, guindá-los a ministros ou banqueiros. Permiti ainda, levado na minha obsessão, que os gatunos oficiais e de mister me metessem as mãos nas algibeiras, os pirangas me ludibriassem, e toda a canzoada humana me ladrasse impunemente. Numa palavra, a vida utilitária, o arranjinho, a conveniência mundana nunca me roubaram um minuto de labor. Valeu a pena toda esta existência de sacrifício, de que ninguém se apercebeu, que ninguém me agradece, de que aliás ninguém me encomendou o sermão? Em minha consciência não sei responder.»...

A.R.

Excerto da dedicatória do livro «Quando os Lobos Uivam» ao Dr. Francisco Pulido Valente, datada de Dezembro de 1958.