“O delegado não se convenceu de que o nome do rapaz fosse mesmo esse. Não havia outro meio de tirar dele a verdade senão com um bom papo. Se a conversa se passasse num seriado de TV americano, bastava segurar o sujeito por alguns minutos na linha para que a polícia rastreasse, através de um equipamento moderníssimo e um cruzamento insano de dados via satélite, de onde vinha a ligação. Bastava apertar um botão. Uma vez que Palmyra estava nitidamente atrasada em termos de tecnologia policial, o jeito era fisgar o homem usando uma boa lábia e, quem sabe, trazê-lo aos poucos para um papo cara a cara na delegacia.”
(resenha publicada originalmente, sem nota de rodapé, em A TRIBUNA de Santos, em 03 de julho de 2013)
Para quem não desdenha a leitura de entretenimento e o vezo de se envolver com um enredo, Morte na FLIP é uma boa pedida. Paulo Levy equilibra habilmente as peculiaridades que tornam tão atraente o romance policial com um sobriedade realista nos detalhes, de forma que nem temos aquele habitual festival de autorreferencialidade (como se houvesse uma obrigatoriedade de homenagear obras anteriores do gênero ou mesmo de legitimá-lo, o que torna cansativa boa parte da produção atual), séria ou paródica, e nem uma ação mirabolante em vã tentativa de imitar o ritmo cinematográfico.
O protagonista é o mesmo da estreia de Levy (Réquiem para um assassino), Joaquim Dornelas, delegado em um balneário turístico, com fortes resquícios coloniais, Palmyra. Abandonado pela mulher (que no entanto tentará reatar o casamento), envolvendo-se fortemente com uma colega legista, viciado em chocolate e goró (deixo ao leitor de Morte na FLIP descobrir o que é), Dornelas se vê à testa de uma investigação momentosa: Georgia Summers (na realidade, Gytha Svensson), escritora estrangeira best seller, uma das atrações da Festa Literária Internacional, em sua 10ª. edição (o que remete Palmyra, não bastasse suas outras características, a Paraty), é assassinada numa das praias locais (há outra vítima: o marinheiro de uma pequena embarcação que ela, misteriosamente, tomara já noite fechada).
Casada com uma agente literária brasileira, Gytha/Georgia havia sido vista embriagada às pampas, sambando em rodas de nativos, à procura de cocaína, perambulando por vários lugares, com seus movimentos vigiados por um desconhecido que parecia estar se reportando a alguém através de celular…
Paulo Levy adota uma estratégia que garante o sucesso geral da sua narrativa, mas ao mesmo tempo a enfraquece em outros aspectos consideráveis: todo o foco narrativo é centrado em Dornelas, acompanhando sua rotina (que, a partir do crime, é dominada pela investigação, inclusive em seus trâmites burocráticos). Se há alguns ingredientes extravagantes (cismado com a arma do crime e a âncora do barco utilizado pelas vítimas, ele se arrisca a mergulhar sozinho nas águas traiçoeiras da praia onde elas foram mortas), isso permite que o romance mantenha uma sensata linha de verossimilhança e convencimento do leitor: eis um mundo ficcional em que eu posso acreditar, sólido e bem-construído. Nada de delegados saturados de filosofia e erudição ou conhecedores das minúcias das safras de vinho, entre outros supostos refinamentos, que parecem infestar a ficção policial brasileira. Também nada dos estereótipos da violência urbana, tão repisados por aqui (aliás, até com relação aos praticantes lá de fora ele se mostra acima da média—Morte na FLIP é melhor do que tudo que li de Patricia Cornwell, por exemplo[1]).
O que faz falta no livro é a FLIP. Desperdiça-se a oportunidade de fazer com que o evento (e seus possíveis personagens) seja de fato o pano de fundo da trama, e acho que esse é o seu calcanhar-de-aquiles.
O contraponto natural da investigação de um crime (a cobertura da imprensa) é explorado de forma tênue e inconvincente (a companheira da vítima, por exemplo, nunca assediado por jornalistas, dá para acreditar?). Outros deslizes: excesso de comparações “enfeitadas” e pueris (“A água acentuava as cores e o brilho da Mata Atlântica, que vibrava com as nuances de uma pintura de Monet”), totalmente desnecessárias; um trecho imperdoavelmente racista para os dias de hoje (podemos perdoar o avoengo Monteiro Lobato, não um autor do século XXI), “O problema era o marido, um crioulo forte como um touro…”; a mania inconveniente e absurda do autor de elogiar seu herói (“Corajosamente mergulhou na água fria…”; “um homem de coração terno e justo”; “Flávia apenas sorriu, pois conhecia bem o homem diante de si: objetivo, sagaz, impetuoso, bruto até, porém de coração terno e justo”)[2].
Em compensação, há uma passagem perfeitamente adequada ao clima destes nossos últimos e agitados dias: enquanto a charmosa festa internacional (tão distante da lida diária do nosso povo, como uma Copa das Confederações) transcorre, um dos suspeitos “nativos” desabafa para o delegado: “Estou desesperado, doutor. Tá difícil conseguir trabalho. Não dá pra acreditar na presidente quando diz na TV que o Brasil está em situação de pleno emprego. Mentira da boa. A gente que rala, sabe.”
[1] Na verdade, foram dois livros bem fracos: Causa Mortis e Restos Mortais.
[2] Um detalhe que pode ser uma idiossincrasia estilística do autor (no que ele está em seu pleno direito, claro), mas soa estranho, é o uso reiterado do verbo “estancar” para movimento dos personagens. Sei que um dos sentidos do verbo é “paralisar, cessar o movimento”, mas na primeira vez em que ocorre no texto (na pág.91) achei até que era erro de revisão: “…o delegado abriu a porta da sala e estancou…”; outro exemplo, na pág. 124: “Ao emergir da trilha de ligação entre as praias Mansa e Brava, Solano estancou”.
Não seria melhor (ou pelo menos mais usual) “estacou”?






