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Nov22

Maria do Rosário Pedreira

Fala-se muitas vezes de pequenas coisas sem importância, mas estas de que hoje falo foram, pelo menos para mim, bastante importantes, porque corresponderam a momentos de leitura extremamente bem passados e fascinantes. Refiro-me ao pequeno romance Pequenas Coisas como Estas, da escritora irlandesa Claire Keegan, que foi finalista do Man Booker Prize e se lê em duas tardes ou duas noites. É uma daquelas pérolas que poríamos com prazer no nosso colar de livros queridos. Quando o terminei, achei até que o Frank Capra, se fosse vivo, de certeza que quereria fazer um filme a partir desta história, de mais a mais, porque o seu protagonista, Bill Furlong, dono de um depósito de carvão numa época de muito frio, é uma dessas personagens intrinsecamente boas que já são muito difíceis de encontrar na literatura. Estamos perto do Natal, e este homem, que vive desde sempre com a mágoa de ser filho de mãe solteira, fornece carvão a toda a vila; entre outros locais, a um convento para onde as famílias atiram rapariguinhas grávidas que ali são escravizadas nas lavandarias e privadas dos seus bebés. A história de Keegan, como ela logo previne, é uma ficção, mas parte de factos reais acontecidos na Irlanda ao longo de décadas, que incluíram milhares de mortes, e é uma lição de compaixão e bondade que dá gosto. Uma autora a reter.