ENTRELINHAS || O CRIME DO PADRE AMARO
realismo português, anticlericalismo literário, crítica social do século XIX, hipocrisia religiosa, relações abusivas
Fotografia da minha autoria«Uma obra polémica, que gerou contestação por parte da igreja católica»Avisos de Conteúdo: Machismo, relações abusivas/tóxicasA passagem de testemunho livrólica é, para mim, uma das heranças mais especiais. Porque nos permite deambular por outros géneros e porque nos permite guardar um pouco mais das nossas pessoas. Por isso, ter nas minhas estantes livros que pertenceram às bibliotecas particulares de familiares é indescritível. E este exemplar corresponde à terceira versão de um dos textos mais centrais de Eça de Queiroz, na qual existe uma diferença na conceção, no estilo e na caracterização do protagonista - sendo, inclusive, apresentada uma nova personagem.«A madrugada rompia. A cidade estava silenciosa, os candeeiros apagavam-se»O Crime do Padre Amaro surpreendeu-me pela fluidez, - porque não? -pelo seu traço sedutor e, sobretudo, pela pertinência dos temas, uma vez que este romance é muito mais que as infrações de um sacerdote. É uma porta aberta para decifrar os vícios, a corrupção do clero, as desigualdades económicas, os preconceitos e o peso que a religião e a Igreja exerciam na comunidade, toldando o seu discernimento. Além disso, leva-nos a refletir sobre a moral, sobre os contornos da mentira e sobre a questão do celibato. Sem, no entanto, esquecer um comportamento que é, no meu entender, altamente limitador: a imposição de um caminho, camuflada numa falaciosa preocupação em relação ao futuro, que em nada respeita o tempo e as necessidades individuais.«Tinha constantemente o seu rosto presente, ele entrava sempre nos seus sonhos»Com uma bandeira nos sentimentos proibidos e na toxidade das relações, expondo o verdadeiro caráter do ser humano e mostrando o impacto das nossas decisões - ponderadas ou obrigatórias, O Crime do Padre Amaro retrata a bisbilhotice, a futilidade, a hipocrisia e a dicotomia entre aquilo que é apregoado e o que é, efetivamente, realizado. Podendo - ou não - interferir com os nossos votos, esta obra aborda a fé. O amor. E todas as áreas cinzentas para as quais ninguém nos prepara.«(...) é uma bela e grande coisa a paixão! O amor é uma das grandes forças da civilização»// DISPONIBILIDADE //Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥
Texto originalmente publicado em Entre Margens