Acabou por ser esta a minha estreia a ler Beauvoir.

(embora tenha há alguns anos os dois tomos do La force des choses)

As Inseparáveis é uma pequena obra de cariz algo auto-biográfico, que foi apenas muito recentemente publicada, não obstante ter sido escrita há mais de 60 anos. Aqui, Sylvie (Simone) relata como conheceu Andrée (Zaza) aos nove anos, numa escola francesa católica para raparigas - como esta exerceu sobre ela, desde o início, um enorme fascínio, e como rapidamente se tornaram inseparáveis uma da outra.

Zaza é, segundo o posfácio da autoria de Sylvie Le Bon-Beauvoir, retratada em várias das obras de Simone, mas é aqui que alcança protagonismo. Embora relatada por Sylvie, personagem de Simone, As Inseparáveis é, mais que sobre a amizade, sobre a amiga e sobre a sua vida curta e trágica.

De forma muito diferente, ambas as amigas tinham dificuldade em aceitar as ideias convencionais do que deveriam ser e fazer, enquanto mulheres, no início do séc. XX. Sylvie é mais filosófica, de opiniões fortes, e Andrée é mais emocional, impulsiva e idealista. Talvez pela família extremamente católica (peregrinações a Lourdes, irmãos na igreja), Andrée tem mais dificuldades em racionalizar o seu conflito no que respeita a ideais de obediência, castidade, casamento, sociedade, o pós-guerra; enquanto Sylvie, cedo, renuncia à religião.

Muitas vezes invejara a independência de Andrée; de repente, pareceu-me muito menos livre do que eu. Havia todo um passado atrás de si; e à sua volta aquela grande casa, aquela família numerosa: uma prisão cujas saídas estavam cuidadosamente vigiadas.

Apesar destas diferenças, a amizade e lealdade delas uma para com a outra nunca vacila. Sylvie é rapidamente ostracizada pela mãe de Andrée (também pela sua falta de fé, que faz com que Sylvie possa ser uma má influência para Andrée), que a mantém ocupada com vários tipos de tarefas que a isolam e fazem sofrer em silêncio, reprimida em nome da obediência e da moralidade, sem tempo para fazer o que possa querer ou estar com quem quiser.

A amizade de ambas acaba abruptamente, tendo a vida de Zaza sido tragicamente curta. Talvez pelo retrato de intimidade, talvez por sentir que não fazia justiça a Zaza, a sua inseparável amiga aqui retratada, Simone de Beauvoir terá guardado este livro na gaveta, mas vê-se que queria muito contar a história de alguém que lhe fora tão importante. A escrita é belíssima, retratando a amizade de ambas com amor e perda - não só a perda de Zaza, mas a perda da possibilidade de escolher, num mundo em que a igreja, as obrigações e a rigidez mandavam.

Tradução de Sandra Silva

4/5

Podem comprar esta edição na wook ou na Bertrand.