
https://dglab.gov.pt/ler-e-ser-livre-21-marco-a-25-abril/
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MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA
(Alcalá de Henares, 29 de setembro de 1547 - Madrid, 22 de abril de 1616)
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«... -- Porque me dei a traduzir D. Quixote ?
«Apenas por isto, o desenfado, a paixão que sempre tive pelo Quixote, me abalancei a cometer a tradução. Não o faria para com Shakespeare ou Goethe.Traduzir é abdicar da personalidade, se é que não significa a sua ausência. É como trabalhar na vinha dos outros, com menosprezo das nossas vides e parras. Senti isto tudo muito bem. Frente à minha equipagem de escritor, que pode ser desvaliosa, mas não é pequena, pus-me a raciocinar se me era lícito aceitar a empreitada, pois que de empreitada se trata. As nossas letras atravessam umas alpodras difíceis. Com o clima reinante, a geada cresta todas as produções do espírito. Nada de verdadeiramente acre e singular pode vingar. Os vindouros não nos acusem de pobreza mental nem de ignávia. Não nos deixaram fazer mais. Quem? O lápis censório? A atmosfera política? O clima? A doutrina triunfante? A cainhez económica do velho leitor devorador de livros? Tudo isto. Depois, se há coisa que precise de licença absoluta para florir, medrar, ascender na luz do Sol, frutificar em frutos saborosos, é essa maldita, frágil, melindrosa planta que é o espírito. Tudo, em contraposição, lhe é adverso nos nossos dias. Nestes casos, como não aceitar ir trabalhar para o montado que deixou o simpático e liberal senhor Miguel de Cervantes, tão perto de todos nós os escritores, proletário como nós, plebeu, embora andassem afanosamente à cata dos seus avoengos fidalgos, inconformista como o somos na maioria! Tão igual a Camões em tudo, no génio, no infortúnio, nos aleijões da guerra, na invalidez, que parecem dois filhos gémeos da macaca. Além disso, cheio de ânsia, com os olhos no ideal, louco, fantasiador, desesperado, perigoso, batido por todas as contradições de uma inteligência proteica.
E acedi a ser maltês na sua fazenda. Claro que tratei de cumprir com dedicação e pontualidade. O meu labor está à vista, tão consciencioso como se fosse granjearia própria a registar na Conservatória da crítica encartada.»
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«Realmente traduzir não requer génio nem nenhuma autonomia mental. Exige porém paciência, que é uma virtude rara nos tempos que correm, e conhecimento das duas línguas. Depois que há-de fazer o tradutor perante as incorrecções do texto uma vez que a perfeição é mais abstracta que uma parábola tirada da Lua para Sirius?
Uma liberdade me permiti ainda: traduzir os versos que envolvem verdadeira inspiração poética, em que está vincado o temperamento do autor, tal a Canção do desespero, que me dá a impressão de inscrita em bronze, não falando nos versos brincados, fáceis, espécie de gazetilha, que não importa recompor com novos elementos da oração e do pensamento. Imagino que a verdadeira poesia é intraduzível. Eu, pelo menos, mesmo que me tentasse o comércio com as musas, como diria Filinto, só por coerência os traduzo. O que há de subjectivo, alado, pessoal quanto a estro e forma, esvai-se. Ficam duas almas sobrepostas, a do vate primigénio e a do autor do arremedilho. É muito arriscado tentar tais empresas, quando já para Lope de Vega traduzir é maior delito do que passar cavalos de contrabando.
Não penso como Merimée que Cervantes, que tinha por maior glória escrever em verso do que em prosa, fosse um poeta menor. Menor no sentido da categoria. O que é, D. Quixote atingiu uma altitude superior à sua especulação lírica, relegando Galateia e Viaje del Parnaso, não obstante o seu relevo, a um plano de mediocridade. Les vers sont mal faits, embarrassés, on sent que l'auteur se met l'esprit à la torture; quand les expressions ne sont pas emphatiques, le style tombe dans la platitude -- escreve o autor da Carmen, que não teve em conta os gostos da escola predominante na época. Ora, como eu considero Cervantes um nobre e digno poeta, foi com medo que toquei na sua pedra de ara, e essas vezes que o faço, não é revestido de dalmática solene, mas com certa timidez e por isso desajeitadamente. Mas, na obra de Cervantes, isto pouco é.»
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