Estou no escritório e, da janela do sétimo andar de um prédio em Porto Alegre, vejo a chuva cair. No entanto, ela é fraca demais para se sustentar e, no intervalo que a separa até o chão, o calor raivoso evapora os pingos. Ninguém sabe que está chovendo. O máximo que as pessoas devem sentir é o bafo úmido tocando o seu rosto, uma espécie de alívio fugidio no meio do sufoco. Contudo, o mais provável é que não sintam nada, pois este é um mundo insensível, incapaz de sentir a presença fantasma da chuva.
É um fenômeno da natureza, eu sei. A “chuva invisível” é aquela que sai da nuvem normalmente mas, ao atravessar uma massa de ar seco, evapora antes de chegar no solo. Mesmo sabendo disto, é interessante ver o mundo dividido em duas partes: uma consciente da chuva, e outra que a ignora por completo. Aqui em cima, os passarinhos se refestelam nos pingos; lá embaixo, as pessoas continuam imersas nos seus problemas e vidas, suando e esperando a redenção da chuva (tão próxima, tão distante).
Boa metáfora para a epopéia humana no planeta: eterno caminhar na superfície, desconhecendo a magia que se processa há alguns metros de distância.
O sol volta a brilhar com força e a chuva retrocede, elegante. Da mesma forma discreta com que surgiu, a magia desaparece. No céu, nem um arco-íris.

Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo