(Adriana Lima)
A TV dos EUA veicula um anúncio da Victoria´s Secret, conhecida griffe de lingerie, usando a canção de Bob Dylan “Love Sick”. No anúncio, a modelo brasileira Adriana Lima passeia pelas pontes de Veneza, usando apenas uma lingerie branca e um par de asas (a coleção chama-se “Angel”), sendo observada a meia-distância por Dylan, que usa seu inevitável terno preto, chapéu preto de cowboy, e o seu visual atual: cabelo meio longo e um bigodinho fino que lembra Vincent Price. Enquanto isto, rolam na trilha sonora os ásperos versos da canção: “Estou doente de amor... você me destruiu com um sorriso, enquanto eu dormia.”
Já visitei uns três ou quatro saites dedicados à obra de Dylan, e a discussão come solta. Dylan todo ano produz uma novidade que vira assunto obrigatório durante os meses seguintes. Já foi cantor de música folk-de-protesto (uma espécie de Vandré americano), depois aderiu à guitarra elétrica, depois virou cantor sertanejo, depois virou cristão, depois virou judeu... Sua obra musical é um diário íntimo exposto à visitação pública.
Às acusações de que fazendo clip para a Victoria´s Secret ele teria “se vendido ao poder econômico”, um ouvinte sensato ponderou que ele faz 20 shows por mês pelas capitais do mundo, e se quisesse se vender, se vendia logo a uma IBM, uma Ford ou uma Microsoft. E um outro lembrou uma entrevista dada por Dylan há mais de 30 anos, quando lhe perguntaram para que tipo de produto ele aceitaria fazer propaganda, e ele respondeu: “Roupas femininas”. E o ouvinte pergunta: “Vocês preferiam que ele anunciasse o que: lingerie, ou comida para gatos?”
É meio pretensioso da minha parte querer adivinhar daqui o que um sujeito está pensando. Mas a Victoria´s Secret está para os EUA como a Du Loren, a Triumph e a Valisère estão para o Brasil. Dylan, que vai fazer 63 anos neste maio, escreveu as canções-de-amor mais maduras da música pop, quilômetros além do sentimentalismo encantador mas juvenil dos Beatles e dos Rolling Stones. Aos 25 anos, ele cantava como um sujeito de 50. Escreveu muita bobagem, como qualquer compositor pop; mas os pontos altos que atingiu não foram atingidos por ninguém mais. Nunca foi um cara bonito, e não é agora, que está parecendo um buldogue molhado de chuva, que vai sonhar em ser símbolo sexual. Ele sabe que, aparecendo ao lado de Adriana Lima (que é uma gracinha) vai parecer mais feio ainda. Ao contrário de Michael Jackson, que entrou num delírio de rejuvenescimento, embelezamento e branqueamento, Dylan quer mostrar a cara que tem.
O enorme contraste entre um homem velho e feio e uma mulher jovem e bonita faz parte da matéria-prima de onde ele extrai há 40 anos sua poesia: os contrastes entre o terrível e o sublime, entre a morte e a vida, entre a verdade e a poesia, entre o poder e o saber. É um mero comercial de roupas-de-baixo, mas nesse universo, onde se celebra sempre a juventude e a beleza, é o rosto devastado do Bardo que silencia os espectadores.
