A beleza por um triz
literatura contemporânea, identidade, imigração, trauma, relações familiares, experiência queer
‘Sobre a terra seremos belos por um instante’ é um retrato visceral sobre a perda Matheus Lopes Quirino O filho foi estudar em Nova York. Letrado, distancia-se da condição do lar, analfabeto. Mas, como na parábola do filho pródigo, volta para casa com os olhos marejados. Regressa para se reunir com as memórias, sobretudo com as perdas: é esse o espírito que o jovem Ocean Vuong ambienta em seu romance de estreia. Ao colocar a imagem do menino se desfazendo conforme a velocidade do trem corta as paisagens da costa leste, Vuong ressalta a fragmentação do tempo como dono do próprio tempo. Em desespero, prantos, o protagonista rebobina sua vida constantemente para se conhecer, montar seu retrato com os caquinhos que sobram depois das horas no trajeto, das dores.E é inconstante, jovem, atropelando o tempo e lutando contra o curso da própria morte a fim de preservar o que sobrou da vida. Ele também atende pelo epíteto de Cachorrinho. Em dado momento lembra da avó, Lan, e como ela o chamou de melhor caçador de flores dos Estados Unidos. Uma reminiscência bonita revela a estreita relação entre os dois. Nada mais delicado do que um ramalhete de flores colhidos de uma beira de estrada. Nada a não ser a cumplicidade entre avó e neto. No livro, Lan, que no idioma do Vietnã significa orquídea, é uma rara flor murchando com o tempo, que abre nas palavras graciosas do neto escritor. Ela viceja para além dos canteiros, torna-se imortal para sempre nas palavras de Vuong.Um autor precoce forja o protagonista já vivido. Tão imaturo para lidar com baixas essenciais para o coração, ele recorre ao relato, à epístola. A endereçada é a própria mãe, que, não por acaso, é analfabeta — imigrante, instalou-se nos EUA fugida dos conflitos do Vietnã — e não poderá ler a carta. Essa intenção de expor-se em demasia é forjada por uma falsa intimidade, devidamente protegida dos olhos da mãe. É o que alavanca o romance de Vuong. Dada a impossibilidade de ler, o filho extravasa sem medir errâncias. Tem-se um retrato visceral da juventude dos transviados, amarelos e malditos em terra Americana.Nem todas as cartas de amor são lidas. Bem como no livro o avô Paul, personagem secundário na história coloca, quando diz que as cartas de Lan lhe foram interceptadas. Vê-se aí um clássico dilema postal sustentado pela literatura há séculos. No romance, a busca pela identidade e a afirmação racial da família Vietnamita é um dos fios condutores que traz o choque de realidade racista vivido por comunidades étnicas na América. Abandonada pelo marido em solo americano, Lan se reinventou, e, com filha e neto, tornou-se a rainha de um microcosmo peculiar, um conjunto habitacional de Chicago, com imigrantes e transgressores.Vuong, que desde cedo escutou histórias e soube interpretar um mundo divisório – isso colocado literalmente num confronto entre subúrbio e centro, visto que um rio corta os conjuntos habitacionais da própria cidade. Ele sofre na pele o peso que é pertencer a um grupo minoritário e vocifera sua razão. Como alusão à questão da pele, ele relata a vez em que rasparam a tintura rosa da bicicleta que havia ganhado da mãe, ainda novinho. Uma cena triste que revela ecos de um submundo onde reina a cor do mais forte. Mas “Era pela beleza, eu aprendi, que nós nos arriscávamos.”, escreve Vuong, sintetizando um pouco do espírito aventureiro do livro. Ambientado na Virgínia, estado conservador norte-americano, o cenário local contribui para que o protagonista se sinta cada vez mais isolado, mesmo que, para estar fora de casa, Cachorrinho trabalhe numa plantação de tabaco, onde encontrará o amor. Trevor é o típico agroboy americano, que escuta partidas de futebol pelo rádio. Mais velho, ele arrebata o protagonista lhe oferecendo o despertar da juventude. Embora o livro trepide num tom essencialmente meloso, a relação entre os dois não peca pelo excesso de felicidade, lido em romances como Me Chame Pelo Seu Nome. Vuong rasteja atrás das migalhas do que um dia foi esse amor bandido e inconsequente. Distanciado do cosmos da adolescência, Vuong lembra o leitor que, mesmo nas periferias do mundo, pode-se existir um amor, mesmo bruto, mas nada que a literatura não possa lapidar. pintura de Charles Demuth/divulgação Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino
Texto originalmente publicado em Revista Fina