A vida anda agitada demais — pensou o velho, antes de dar prosseguimento aos ritos imemoriais e inexplicáveis do dia a dia. Nas últimas semanas, ele se arriscou — mais do que de costume — a sair várias vezes de sua Ítaca, às margens do Capibaribe, para outras ilhas distantes: restaurante, teatro, lançamento de livro, cinema… Para sua surpresa, deu tudo certo; e ele, ainda que cansado e pensando sempre nostalgicamente no lar — nostós, diziam seus antepassados —, não precisou enfrentar o forte Polifemo ou a feiticeira Circe para lograr o retorno. O velho não se queixou — nem para si mesmo —, e realmente não se importou em estar fora de seu refúgio por tanto tempo. Foram dias incomuns, dias bons.

Finalmente de volta à casa, numa manhã nublada de sexta-feira no estranho calendário cristão que recentemente adotara, o envelhecido náufrago decidiu escrever algo sobre o que vira, com a esperança de que aquilo pudesse talvez servir ao aprendizado de suas Telêmacas, que um dia precisariam sair para enfrentar suas próprias travessias.


Fala-me, ó Musa, do homem astuto, que muito vagueou, depois de destruir a sagrada cidade de Troia.”

O Retorno é uma adaptação contemporânea — e, também, um recorte episódico — da Odisseia, o poema épico atribuído ao Aedo Homero que, junto à Ilíada, está nas origens do que chamamos “literatura ocidental”. Nesta mais recente versão cinematográfica, dirigida por Uberto Pasolini, a narrativa abdica de elementos míticos e fantásticos para apresentar uma nova versão do herói protagonista: vemos um Ulisses (Odisseu) tremendamente realista, densamente humano e marcado pelo trauma da guerra; ele vagueia por um mundo despovoado de deuses, fantasia ou quaisquer referências míticas ou sobrenaturais. Isso não quer dizer que o personagem esteja irreconhecível aos leitores do poema homérico. Entre os epítetos usados pelo lendário poeta cego para seu protagonista, apenas um é propositalmente olvidado no filme: não há lugar agora para o δῖος Ὀδυσσεύς (díos Odysseús), referência que marcava sua proximidade com os deuses e sua possível ascendência divina. Mas as demais alcunhas são plenamente identificáveis: o Odisseu πολύτροπος (polýtropos), o de “muitos recursos”, famoso pela astúcia, versatilidade e  inteligência prática; o Odisseu πολύμητις (polýmētis), o de “muita sabedoria”, que se destacava dos demais heróis pela capacidade estratégica e mente engenhosa; o Odisseu ταλασίφρων (talasíphrōn), “sofredor paciente”, admirado pela resistência aos sofrimentos e capacidade de suportar adversidades; e, ainda, claro, o Ὀδυσσεὺς Λαερτιάδης (Odysseús Laertiádēs), “Odisseu, filho de Laertes”, marcado pela linhagem e identidade familiar.

Ao despir o herói e sua aventura da aura épica, o filme opta por pensar o nóstos — esse retorno à casa, à origem, à identidade (daí a nossa palavra nostalgia) — não como uma travessia fabulosa, transcendental ou divina, mas como um sofrido reencontro com o cotidiano transformado pelo tempo, com os sentimentos do passado já redimensionados e com os escombros de uma memória marcada pelo horror intranscendente da experiência de uma carnificina — a Guerra de Troia — que durara dez anos; além de mais uma outra década inteira de dura errância por terras hostis e mares estranhos em busca da própria casa. 

Ralph Fiennes como Odisseu na versão cinematográfica dirigida por Uberto Pasolini.

Os muitos Odisseus, as várias odisseias

Alguns críticos viram nessa “infidelidade” ao texto um problema da adaptação cinematográfica. De minha parte, penso diferente: talvez Ulisses seja um dos personagens mais recriados, reinterpretados e aludidos da literatura, e isso já acontecia mesmo na antiguidade, como se vê em versões do herói em diversos poemas e dramas gregos, como no Filoctetes, de Sófocles; ou, já no mundo latino, como é referenciado negativamente na Eneida, de Virgílio, já que a história é contada pelo ponto de vista dos derrotados em Troia. Em cada novo Odisseu, por mais distinto que pareça do original (se é possível falar aqui em “originalidade”), atualiza-se a mitologia, reanima-se e amplia-se sua potência de seguir interessando a públicos de diferentes épocas, com o acréscimo de novas camadas e perspectivas àquele universo imaginário. 

O esposo de Penélope foi, claro, um dos modelos basilares de herói da tradição literária ocidental, mas isso não significa que ele foi sempre um só, idêntico a si mesmo; o pai de Telêmaco foi adotando várias facetas na medida em que era reencenado por escritores e artistas de tempos diversos, o que efetivamente contribuiu para a permanência de seu próprio “mito”. Se não é assim, o que dizer do Ulisses de Joyce, reencarnado em Leopold Bloom, cuja jornada — de apenas um dia, banal e intranscendente — subverte em sua radical modernidade quase tudo o que representa o sentido do heroísmo épico? Ou o Ulisses de Kazantzákis, talvez o mais denso e filosoficamente profundo, que, ao contrário do original, não busca o retorno ao lar e o descanso ao lado da família, mas somente se manter em constante movimento e liberdade, em uma inquieta busca de algo que nunca aparece ou acontece? E o que pensar do grande poema Ítaca, de Constantino Kaváfis, no qual a odisseia é mais interior do que exterior, e a travessia — grande jornada da existência —, mais importante do que o destino?

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.

Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.
1

Estas, e muitas outras releituras, mostram como Odisseu continua sendo um personagem multiforme (polytropos), capaz de refletir os dilemas, em sua sempre renovada modernidade, da subjetividade, da identidade e da autoria.

Talvez aqui caiba uma pequena analogia a partir de um célebre episódio da própria epopeia. Para enganar e escapar da fúria do ciclope Polifemo, o herói já tinha usado a estratégia de não se nomear, não se fixar numa identidade. Perguntado a respeito de qual seria seu nome, o astuto Odisseu disse ao inimigo monstruoso: “Ninguém é o nome pelo qual me chamamcom esse artifício, faz com que Polifemo, ao ser atacado no único olho, peça ajuda aos demais ciclopes gritando que “Ninguém” o feriu, de modo que eles não se mobilizam para socorrê-lo. A ausência de identidade — ser outro ou mesmo ser nenhuma pessoa —, que o fez invencível na luta, também o faz sempre moderno enquanto personagem literário.

Fernando Pessoa ressoa: “O mito é o nada que é tudo”. Mesmo sem deuses, monstros ou prodígios, Ulisses permanece mítico porque sua trajetória — a persistência em voltar, em resistir, em reconstruir — é o relato instituidor que remete à precariedade e transitoriedade da condição humana; um arquétipo da condição errante, resiliente, sempre em busca de algum sentido, de um ser que não tem natureza ou essência, somente história. E é por isso que ela continua sendo recontada, adaptada e reinventada em tantas culturas e linguagens.

Depois das epopeias de Homero — fundadoras e modelos do que ainda entendemos por literatura —, sentimos que toda aventura humana é, de certa maneira, uma nova odisseia, mesmo que se trate do ordinário relato de um único dia de um homem comum, traído pela mulher, vagando pelas ruas de Dublin; ou talvez a anódina peripécia de um pequeno texto, escrito por um banal cronista numa manhã nublada de sexta-feira.


À maneira de epílogo

Como é teu nome, velho? — “Ninguém é o nome pelo qual me chamam”.


Mais uma Odisseia

Há uma enorme expectativa pela estreia do próximo filme de um dos diretores mais badalados de nosso tempo. A versão de A Odisseia dirigida por Christopher Nolan tem estreia marcada para julho de 2026. O filme será uma adaptação épica do poema de Homero, com todo o recurso tecnológico que o cinemão pode pagar e um elenco estelar que inclui Matt Damon como Odisseu, Anne Hathaway como Penélope, Tom Holland como Telêmaco, Zendaya como Atena e Charlize Theron como Circe. Algumas informações iniciais sobre como Nolan pretende adaptar a epopeia indicam uma abordagem bastante ambiciosa. O estúdio descreveu o projeto como um “épico mitológico de ação filmado ao redor do mundo com a mais avançada tecnologia de IMAX”. Segundo os estúdios Universal e fontes como Rolling Stone Brasil, o diretor apresentará a jornada completa de Odisseu, desde o fim da Guerra de Troia até seu retorno à ilha de Ítaca. Isso inclui episódios famosos como o encontro com o ciclope Polifemo, a passagem pela ilha da feiticeira Circe, a estada com a ninfa Calipso, o desafio das Sereias, a longa e dolorosa espera de Penélope e o enfrentamento contra os pretendentes em Ítaca. Aguardemos.

Uma série de aulas de literatura e filologia

Recomendo muito a sequência de palestras do filólogo Carlos García Gual a respeito da Odisseia e de sua enorme influência e permanência em nossa literatura e cultura: 

La Odisea y su pervivencia en la tradición literaria | Fundación Juan March


Eduardo Cesar Maia é ensaísta e professor da UFPE. Acompanhe sua newsletter: Pássaros Interiores | Substack.

Notas:

  1. Tradução de José Paulo Paes. ↩︎