imagem/Os Amantes de Magritte

Bruno Pernambuco 

Amor

[do latim amore]

  1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa;
  2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou a uma coisa; devoção extrema:

“Amor é um fogo que arde sem se ver” (Luís de Camões, Rimas, p.135); “Vereis amor da pátria não movido/ De prêmio vil, mas alto e quase eterno (Id., Os Lusíadas, I, 10)

  1. Sentimento de afeto ditado por laços de família
  2. Sentimento terno ou ardente de uma pessoa por outra, e que engloba também atração física

“Tenho frio e ardo em febre!/ O amor me acalma e endouda, o amor me eleva e abate!” (Olavo Bilac, Poesias, p. 124);

  1. Por extensão Atração física e natural entre animais de sexos opostos
  2. Amor (4) passageiro e sem consequência; capricho
  3. Aventura amorosa; amores (3)
  4. Adoração, veneração, culto
  5. Afeição, amizade, carinho, simpatia, ternura
  6. Inclinação ou apego profundo a algum valor ou a alguma coisa que proporcione prazer; entusiasmo, paixão
  7. Muito cuidado, zelo, carinho
  8. O objeto do amor (1 a 9)
  9. Mitologia Cupido

“Não me parecia que Amor/ pudesse tanto comigo/ que donde entre por amigo/ se levante por senhor” (Luís de Camões, Rimas, p.69)

(Aurélio, 2021)

É sempre cedo e tarde demais para falar a respeito do amor. Cedo, porque ele nunca realmente chega. Amar é sempre incompleto. Aquilo que se vive, quando se usa essa palavra, “Amor”, assim tão desafogadamente, com tanto desencargo, não é mais que uma pequena, minúscula, terrena, inteiramente, parte sua.  O amor mais certo é aquele que mais se trai. Tarde porque senti-lo é que ele já tenha passado. A intuição do amor é posterior ao seu próprio sentimento. A sua linguagem é própria, lenta demais para a pressa dos acontecimentos e veloz demais para a imprecisão dos pensamentos.

Descrever o que é o amor é avançar dentro de um impossível- mas que pode ser um impossível muito diferente de outros conceitos, menos inventados, menos descritos em formas incompletas, por interesse ou ignorância- isso se eram realmente incompletas, se pode, nesse caso, existir completude. 

O amor, como muitas definições, pode ser apenas lembrança de quem o sentiu, ou apenas invenção de quem nunca chegou perto de o viver. E talvez não só no seu caso esses dois opostos possam ser a mesma coisa, dispor da mesma exata matéria- mas em nada, da forma que o é no amor, essas definições ainda não lhe atingem por inteiro, e sendo iguais são duas incompletudes inteiramente distintas.

Não se deveria perguntar se o amor existe de fato- enquanto entidade, ou enquanto invenção, mas invenção persistente, que se mantém, que se justifica, que diz alguma coisa, mesmo que em meia mentira. Melhor seria perguntar se existe algo que está além da linguagem usual, se existe alguma emoção natural- os sentimentos podem, afinal, ser de uma espécie inventada, feitos pela palavra, criados quando seu sentido é enunciado- que de fato não se alcance completamente, que mostre-se e esconda-se, que se presuma, vez ou outra, ter sido encontrado com perfeição em uma poesia, conforme à época, na forma e na voz de quem tinha direito de dizê-lo, e que depois se transforme novamente, se abra num encontro que minta o dito anteriormente. 

Todo esse espanto me traz definições possíveis:

Amor

Aquele sentimento que, no instante em que é vivido, é simultaneamente novo e velho; é, ao mesmo tempo, inédito e bissexto.

mas sei que isso não me vale de nada. Ou, que por mais valiosa que a palavra seja, ao proferi-la seu sentido já se dissipou. O amor, se existe, por natureza fala em passagens que tem a velocidade de Hermes.

O amor é inevitavelmente a última de todas as coisas. É aquilo que nasce depois de toda a angústia, depois da dor, da tontura, da falta de dinheiro, da náusea, da pedra, da asma e da eternidade. Pode ser aquilo que nasce após o fim, ou o que está colocado após o futuro. Pode presumir todas as mortes, para se justificar.  O amor é o sentimento que não cabe inteiramente na imaginação, nem na emoção singular, nem na vivência de quem quer que seja, mas que está condenado a não ser nada que extrapole os limites daqueles que o contém. Amar é inventar a própria humanidade, às vezes dissonantemente, mal-ajambradamente, e improvisando.