Acompanhada por uma legião de seguidores no Instagram, ‘Confinada’ é um retrato da pandemia e de um Brasil dividido.

Giovana Proença

Brasil, 2020. Em meio ao momento mais turbulento da pandemia de COVID-19, com as medidas mais rígidas de isolamento social, uma verdadeira legião de seguidores acompanha Confinada, série de tiras que o cartunista Leandro Assis e a ciberativista Triscila Oliveira lançam no Instagram. Um ano depois, no dia primeiro de abril, o episódio final é postado, ultrapassando cem mil curtidas. As setenta tiras, que venceram as adversidades do algoritmo na rede social, são reunidas agora em volume único pela editora Todavia.  

“O segredo é esse, galera: comer certo, treinar pesado e dormir bem. Basta isso para tirar a quarentena de letra!”, afirma Fran, uma das protagonistas da série. Digital influencer com mais de três milhões de seguidores e herdeira de uma família quatrocentona, a personagem solta suas pérolas, enquanto posta a bandeira “Influencers Antifascistas”. Com a chegada da pandemia e o marido longe, na Itália – então epicentro do vírus – Fran passa a dividir o apartamento de luxo com Ju, a única das três trabalhadoras domésticas que decide, por necessidade do emprego, ficar no local.  

Embora o título se apresente no singular, o termo “confinada” vale tanto para Fran quanto para Ju. Contudo, elas certamente não estão em pé de igualdade. Enquanto Ju acompanha a realidade do vírus por meio de parentes e amigos da comunidade em que vive, Fran se blinda em sua cobertura e no mundo encantado de #publis e #gratiluz. Exemplo de positividade tóxica, a influencer passa os dias entre sua rotina de malhação e lanches fitness, preparados por Ju. Se Fran é a anti-heroína – e por vezes, vilã – da narrativa, Ju é a personagem que enfrenta, de cabeça erguida e com consciência de classe, a pobreza, o racismo e a vilania da empregadora.   

“Você faz caridade. Não morre. E fica estilosa”, Fran mostra seu descolamento da realidade na publicidade para uma marca de máscaras de luxo, que promete doar cestas básicas para comunidades. “Ih, não! Pegou a Rocinha. Aí é muito bad vibes!”, reclama de uma selfie, em outro momento. Os contornos de um Brasil dividido se expressam nos quadrinhos de Confinada. Ao mesmo tempo, conhecemos o companheirismo e a solidariedade que rondam o convívio pessoal de Ju, por meio da ternura da filha, da mãe e de vizinhos, que acentuam ainda mais a frieza e a hipocrisia dos Santos, família de Fran, e protagonista de outra série de tiras de sucesso da dupla Assis e Oliveira.  

O traço de Leandro Assis, entre o caricato e o realista, evidencia os músculos torneados de Fran, o maxilar marcado pela bichectomia – procedimento queridinho das blogueiras – e o nariz provavelmente remodelado no bisturi, revelando o protótipo dos padrões estéticos. Mas não se engane, por trás da postura good vibes, há um esboço de amargura, acentuado pelo semblante duro. Em contraste, Ju soa natural, com uma postura orgulhosa de seus traços. Mesmo com a jornada de trabalho tripla que passa a assumir durante a pandemia, é mais fácil encontrar nela contornos de doçura do que em sua financeiramente afortunada patroa.  

Confinada é o retrato das novas configurações do classicismo e do racismo para uma geração marcada pelas redes sociais, pela cultura do cancelamento e pela reinvindicação de minorias historicamente oprimidas. Os criadores da tira acertam também nas inovações, incorporando o layout de posts e stories, com direito aos típicos comentários de aclamação e desaprovação de seguidores alucinados. Em tempos em que influenciadores reinam e são cancelados em questão de segundos, o apelo da série torna-se ainda maior. Antítese de dois brasis, Ju e Fran marcaram a quarentena.  Se a primeira conquista por unanimidade a simpatia do público por sua força combativa e pela resistência, Fran é quem amamos odiar – ou até mesmo odiamos amar – por nos revelar a hipocrisia de uma elite que mascara os seus preconceitos. Acima de tudo, Confinada nos mostra que, quando se fala das desigualdades brasileiras, há infinitos números entre o 13 e o 17.  

Revista Fina: Da onde surgiu a ideia para Confinada’?

Leandro Assis: Vendo a onda de extrema direita no Brasil, e percebendo a quantidade de pessoas próximas a mim que votaram no Bolsonaro, decidi fazer uma série de tiras para falar desse momento. Escolhi falar da interação entre uma família branca rica e conservadora e uma família de mulheres pretas e pobres que são suas empregadas domésticas. A ideia era falar de desigualdade social, branquitude, racismo, etc. Essa série era Os Santos. Quando a pandemia estourou, eu e Triscila (que escreve a série comigo) decidimos dar uma pausa em os Santos para fazer uma série mais centrada nas questões da pandemia. Assim surgiu Confinada, que é um spin-off dos Santos. Fran, a confinada, é sobrinha dos Santos. 

Como foi para você representar um retrato da pandemia?

De uma certa maneira serviu como válvula de escape. Foi muito bom para a cabeça ter esse trabalho para fazer. Por outro lado, foi bastante triste ver como a pandemia ressaltou ainda mais os efeitos da desigualdade social. 

Como foi o processo de escrita e ilustração das tiras?

Cada tira tem nove desenhos. Então o trabalho é partir de uma ideia e encontrar 9 desenhos que contem essa ideia. 

Por falar nas ilustrações, os traços nos desenhos de Fran e Ju nos mostram de maneira evidente quem são essas mulheres e o ponto de vista adotado na história. De que modo você criou visualmente essas personagens?

A Fran foi mais “fácil”, porque pesquisei várias influencers e parti delas. Para criar a Ju eu tinha duas palavras em mente: simpatia e força. 

Na sua visão, qual o lugar do humor dentro da crítica social?

Acho que o humor é uma excelente ferramenta para a crítica social, porque faz o leitor baixar a guarda e receber com mais “facilidade” a crítica. 

Como você vê o cenário dos quadrinhos no Brasil?

Estamos em um excelente momento. Muita gente fazendo coisa boa. Muita gente refletindo sobre o Brasil e sobre as questões sociais. 

Confinada adota um tom político e combativo. Considerando o cenário da política brasileira, qual você pensa que é o lugar do artista dentro disso?

Eu acho que tem que ter espaço para todos. Para aqueles que precisam falar do social, da política e até para aqueles que querem “apenas” divertir, que também é super válido. No meu caso em particular, sinto necessidade de divertir mas tb denunciar, refletir sobre os nossos problemas, etc. 

Que mensagem você gostaria de deixar para o Brasil de hoje?

Puxa. Não acho que eu tenha uma mensagem para deixar para o Brasil. Mas o que me ocorre é dizer que o Brasil precisa resolver urgentemente a questão da desigualdade social. Precisa ser um país mais justo. Um país melhor.