Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos oferece aos entusiastas da obra de Sylvia Plath a possibilidade do olhar mais concreto para a produção de uma das mais notórias vozes autorais do século XX Giovana Proença Um retrato da poeta quando jovem. O trocadilho a titulação joyceana é a alcunha dos textos reunidos em Johnny Panic e a Bíblia de Sonhose outros textos em prosa, publicado pela Biblioteca Azul. A juventude referida não necessariamente abrange a idade de Sylvia Plath, eternizada pela morte aos trinta anos, uma vez que os escritos variam cerca de uma década nas datações. Trata-se, portanto, de uma consciência literária manifesta em seu desabrochar, peça chave que a coletânea oferece aos leitores; testemunhas à postos para o vislumbre do amadurecer da mítica escritora norte-americana. Se na poesia e no romance A redoma de vidro – composto em linguagem poética, uma prosa que só pode ser definida como belíssima – Sylvia Plath alcançou a maturidade autoral que a consagrou como um dos maiores nomes da poesia do século XX, Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos tem uma posição peculiar dentro da produção essencialmente lírica de Sylvia. Longe do reducionismo dos “óbvios defeitos” apontados por Ted Hughes, poeta e marido da escritora, em sua Introdução ao livro – Por que mesmo Hughes continua participando de projetos envolvendo Plath, com toda a problemática da relação? A pergunta ecoa aos familiarizados com a vida e a obra da poeta – os escritos renegados de Sylvia Plath revelam traços de sua produção prosaica. A beleza do conjunto é elevada na exposição crua de uma prosa “verde”. A maturação de Plath viria na lírica que a conferiu o status mítico; a autora teve como fundamento a missão de pintora da natureza-morta, esmiuçadora das pequenas coisas – talvez seja só por esses detalhes revelados, que apenas a vida comum propicia o conhecimento, que Ted Hughes ainda esteja presente em projetos editoriais da obra de Sylvia. Os contos de Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos revelam a vocação literária como devoção de vida, Pltah tinha como objetivo se consolidar na publicação de jornais e revistas, de modo que grande parte dos escritos foram anteriormente publicados em magazines. Multifacetado, o livro traz ainda textos diversos: diários que deliciosamente permitem a espiada furtiva na intimidade velada e ensaios que desvelam o gênio pensador de uma poeta-to-be. Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos torna real o mito de Sylvia Plath. A obra desconhecida de uma escritora enevoada de misticismo e permeada pelas abstrações líricas oferece aos entusiastas de sua obra a possibilidade do olhar mais concreto para a produção de uma das mais notórias vozes autorais do século XX. A aprendizagem do ofício literário escorre pelas páginas da coletânea, o lado B de Sylvia Plath – quase conseguimos ver a poeta em meditação em frente a máquina de escrever. Despretensiosos na pretensão de Sylvia, os textos reunidos em Johnny Panic não visam o status da obra poética que a consagrou; são apenas as brechas da redoma de vidro de uma lenda. Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos Sylvia Plath Biblioteca Azul 2020 Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença