A primeira vez que a vi não me aparentava o menor interesse. Mentia de leve e sorria de pouco
André Vieira
Aquele dia tinha nascido pra chover. Arregaçava as luvas, emplumava as galochas, ajeitava o chapéu-charme na cabeça oca de estudante de médio mediano como quem pretendia caçar rãs na garoa. Cheirava molhado. O mesmo das ervas e das gramas do jardim falso e dos baldios das ruas e asfaltos era revigorado pelo gotejar de primavera, em que se ouvia o regador acionar a redenção fria de sereno a trinte e seis graus. Sua presença mesmo transpirava pelas paredes mais poeirentas daquele apartamento enclausurado, fenecido sono de vivos mosquitos de ontem, em sonhos murchos de padaria.
A primeira vez que a vi não me aparentava o menor interesse. Mentia de leve e sorria de pouco, rindo a boca toda quando o guarda-chuva vinha na minha cara ou esquecia a carteira num lugar inusitado, às vezes do lado de plantas ou pratos que davam um aspecto verde àquela universitária vida cinza. Na época, tínhamos recém-resgatado as samambaias e passávamos a maior parte do tempo adornando suas folhas e limpando seus caules, ainda resfriadas por nosso desconhecimento de república dos bananas. Mas não demorou e florescemos juntos, entres pés e mãos trocadas na hora do enlaçar de raízes; mas quando sorria e quando me olhava — desde aquele dia— era difícil manter o carão ou fingir que nada estava sendo planejando: aquela muda nova sempre teve aspecto de velho barro.
Eu dava com os ombros e fingia que não era comigo, desviando o olhar pra janela ou pro carpete acariado de nossos velhos mofos inquilinos:
—“Você me prometeu que hoje a gente ia bailar na chuva”, repetia sempre que me queria tirar da tônica sério, e se reinventar qualquer desculpa naquele amor de memórias.
— “Hoje, não posso”, repetia também a mim mesmo como se convencido que o verão era a única época para ser feliz. Só se colhe mágoas daqueles que se foram e dos que se martirizam a arfar a terra — E o que vem depois do inverno?
Ela me olhava com olhos claros como sol, esperando uma resposta iluminada pelo holofote de onde sempre vieram nossas sombras mais particulares. Se ela viria, levantaria consigo todo furacão que dormia com as meias: boletos vencidos, carreiras arruinadas, cafés adormecidos, vida reviradas e o desejo pontiagudo. Retilíneo. O papo daquela casa sempre pendulava a puída solitude estática. Mas ela, descontraída, insistia. Se aproximava esvanecida de meus ouvidos e dominava meu coração inquieto, ninando a besta-interior em clamor de todos os amantes de tardes pegajosas a sofá e Faustão:
— “A chuva vem vindo. Vem comigo. Me pega pela mão”.
É claro que quis me atirar da janela; como nas últimas trinta e seis vezes que ouvira aquela ladainha de capas de chuva escocesas e corta ventos venezianos; mas dessa vez, o toque no queixo me intrigou. Dessa vez, suas poucas palavras descortinadas pelo silêncio longo dos passarinhos da rua não pareciam uma forma suja de me fazer jogar limpo; dessa vez, talvez nasceria um desejo puro de persianas novas para dizer tudo aquilo que se sente de verdade, sem apelar à ridícula piedade em carência alheia ou ao deboche juvenil equilibrando-se no calor de seus braços, por pormenores favores autorrecomensatórios. Dessa vez, reveria a luz apaixonada de seus olhos entre o laranja do seu rosto e o frio de seus atos.
Inflei, ao acaso, de um cigarro no bolso da camisa desbotoada. Um-dia-branca em um dia cinza. Retomei os pensamentos materializando uma rota de fuga de minha própria desgraça. E o réquiem pós-mil-e-uma-noites.
Mas falhei.
A verdade é que isso durou o exato segundo do farol na esquina parar no vermelho. Mas é verdade que em mim senti, dentro de mim, que o pássaro se debatia contra a gaiola do meu peito: por entre o arco-reflexo dos dedos acesos pelo isqueiro, aferrei todo meu ódio daquela casa, daquela comida, daquela vida, daquele arrependimento de três quarto e escritório que tomavam seis quintos de meus dias— e os finais de semana na casa da mãe dela, é claro. Entreolhei Marina com o desprezo dos apaixonados pela vida e dos esperançosos em poesia, amuado:
— “Como posso te confiar, querida? Já caminhamos lado a lado, já nos erramos por essa estrada e já encontramos nossas íntimas respostas a nossos públicos problemas. Não tem por que a gente acreditar que tudo isso vale isso tudo, ou o que fora antes será “o” de agora. Acreditei desse tempo vir e que seríamos um para o outro, Marina: como crianças que sorriem pelo simples fato de estarem felizes”.
Da fresta da janela, ventilava o último sopro nublado, empilhando meu ânimo de chumbo junto àquela sala de estar de xícaras vazias e noites maldormidas. Não me toca. Ela me tocava o braço como se quisesse estender um curto laço encurtado pelas diferenças que cresciam em nós mesmos. Não me olha. Na vigília de nossos ânimos de aço, o vencedor das guerras era aquele que reencontrava ternura na dor alheia; mesmo que esta estivesse a ponto de bala de levantar pros ares aquele recinto de sarna. Vai embora. Marina lustrava os cristais como se fosse útil, polindo frases, verbos, adjetivos e advérbios a esmo, refinando o tom metálico do abandono melancólico de bolas algodão:
— “Não fala isso, amor. Me escuta, me ouve, me abraça. Somos pessoas diferentes, eu sei, mas é normal viver sendo diferente. É por isso que acredito em você, Luís; eu acredito que somos perfeitos um para um outro quando você me coloca junto a seu peito e me ouve”. Nesse momento já tinha desabotoado o nó da garganta e posto no gogó a sua verdadeira intenção impertérrita. “Ouve a chuva, Luís. Tudo pode ser diferente agora. Me pega pela cintura e vamos descer para molhar os pés. Tomar o vento na cara. Sentir o calor um do outro na água que escorrerá por nossos cabelos”.
Rindo, sorri com desprazer para aquela meaculpa jocosa. Na fala curta, de pontuação precisa, me faltou pouco para não acreditar naquele senso de justiça patético. Tardou, mas me reconheci no desprezo de mim mesmo, quando seus lábios tremularam e seus olhos piscaram em tique-taque nervoso. Por um momento quase acreditei que ela pudesse ser, de fato, tudo aquilo que acreditei. Na concepção mundana de família. Nas explicações gordurosas de tardes margarida. Nas gravatas borboleta-de-escritório e nos aventais de bolinhas-pilotos-de-cozinha. Nas longas tardes à frente da lareira falsa fingindo ter qualquer tipo de ligação amorosa além da memória de nossos sonhos derretidos, como embalagens de picolé de carrocinha estendidas ao sol.
Enquanto o silêncio inundava a casa dos tapetes ácaros, a chuva ricocheteava a rua de passarinhos mudos. Tirando-a do colo, me levantei do sofá coberto de areia e olhei fixamente nos olhos de Marina, que despertou com pavor à reação repentina do entredescruzar de pernas. Ensaiei um beijo em seus lábios trêmulos, e quando sua boca vinha se enganchar perto da minha, silibei perto do maxilar, na trave de seus lábios, as palavras que eu tão bem conhecia de sua boca:
— “Meu segredo é que nunca te amei”.
Desprendi meus dedos de seus cabelos longos e sua cabeça foi direto às almofadas empoeiradas, afundando no conforto as frustações sobre si mesma. Afinal, nossa relação sempre se tratou disso, Marina.
Já eu, calcei as galochas, vesti uma capa azul de um desconhecido parente e empunhei uma sombrinha lilás, como as flores que nasciam no primeiro que nos conhecemos, anos atrás. Realonguei meus olhos na sala agora habitada pela bagunça e um corpo inerte a seu próprio desconcerto. Fiz um sinal de testa qualquer e me despedi dela cantando o mantra de minha uma geração de frangos televisivos: “vou sair pra comprar cigarro”.
Garanti que a porta atrás de mim tinha ficado bem fechada e quando me encaminhava ao corredor da saída de incêndio, retomei o passo. Não sei se por descuido, não sei se por saudades antecipadas, bati de leve contra a madeira envernizada pelo choro dos náufragos:
—”Você quer que te traga algo da rua?”
Minha carteira tinha ficado no bolso da frente.