Fotografia da minha autoriaTema: Um livro que achas que vais gostarAs sensações que a leitura nos desperta são sempre imprevisíveis, uma vez que dependem de vários fatores: a história, a escrita, o estado de espírito e o vinculo com o autor. Portanto, não antever o que nos espera torna o processo entusiasmante. No entanto, há algo que tenho de confessar: quando li o tema do The Bibliophile Club para setembro, não hesitei na minha escolha. Porque, independentemente das reações, seria impossível não gostar de um livro de Miguel Esteves Cardoso.«O jogo da vida é ganharmos tempo para fazermos o que queremos» [p:13]No Passado e no Futuro Estamos Todos Mortos é uma homenagem ao presente, alertando-nos para a importância de aproveitarmos cada momento e para o desperdício que é perdermos tempo com coisas - e pessoas - que não nos preenchem, que não nos ensinam e, inclusive, que não nos permitem evoluir, condicionando toda a nossa experiência inter e intrapessoal. Deste modo, ao longo de 12 capítulos, escreve sobre tudo o que faz parte da vida, com especial enfoque no[s] tempo[s], nos amores, nas alegrias, nas raivas, nos desvios, nos bichos, nos climas, nas portuguesices, nas inglesices, nos prazeres, nos passeios e nas velhices. Porque a nossa existência é feita de inúmeras camadas, não existindo apenas um caminho a seguir, nem uma só maneira de vivermos.«Ser mimado também é a mais bela das maldições. O amor é uma temperatura boa» [p:40]Há sempre um traço a casa que me emociona na sua escrita. E a verdade é que a crónica é o género que o define melhor e que demonstra a sua genialidade, pois tem um poder de observação e de desconstrução do quotidiano surpreendentes. Além disso, tem a capacidade de partir de um tema trivial, envolvendo-nos numa reflexão profunda, desafiante e sempre intrigante e abrindo portas que não tínhamos explorado antes. Como é natural, não concordo - nem me revejo - com todos os pontos de vista que partilha, mas é inegável o cuidado da sua argumentação. E isso não me impede de reconhecer a mestria de cada texto. Por mais que possamos estar em lados opostos da estrada, continuo a acompanhar o seu brilhante raciocínio e a descobrir quais as pontes que nos unem.«Na Primavera não seremos nós - maus humanos, que saimos do nosso Inverno de protecção, egoísmo e indiferença - que acordamos?» [p:131]No seu mais recente livro, alterna entre um tom saudosista e um tom mordaz. Embora seja fascinada pelo último, fico sempre admirada com o seu registo melancólico, porque nos mostra um pouco mais da sua personalidade, ao mesmo tempo que nos coloca num patamar equilibrado, porque todos temos sonhos, medos e hesitações. Com traços de humor inteligente e uma análise plural, mostra-nos que a melhor forma de avançarmos é não caindo no erro de abraçar a ganância e de sermos extremistas. Por isso, o segredo é mesmo darmos valor à vida. E, talvez, pensar na morte possa ser o impulso que nos possibilite desbloquear e compreender, em definitivo, que a incerteza do amanhã não deve ser um impedimento para arriscarmos e cuidarmos de nós.«Afinal, que mal é que tem uma pessoa tratar-se bem?» [p:195]No Passado e no Futuro Estamos Todos Mortos faz uma viagem por vários assuntos, incentivando-nos a não perder muito tempo naquilo que não podemos controlar. Apesar de sabermos como a história termina, vale a pena não desistirmos já. Porque a nossa vida pode não ser a melhor, mas é única. E temos todos os argumentos para a tornarmos valiosa.«Desencoraja-se a leitura quando se cria uma obrigação de ler. Ler é um prazer.» [p:201]// Disponibilidade //Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada ♥