Fotografia da minha autoria «Enfeite a árvore da sua vida» A cadeira de baloiço estava em movimento, entoando a melodia do seu vai e vem. A manta rendilhada cobria as pernas do pai, que já tinha O Quebra-Nozes aberto, aguardando pelo momento em que eu apareceria de olhar atento e maravilhado, pronta a saltar para o seu colo, viajando através das ilustrações. E foi assim que adormeci, embalada pela sua voz rouca, colocada, e pelas palavras que eu ia repetindo em surdina. A árvore de Natal surgia ao fundo, completamente descaracterizada, à espera de uma oportunidade para brilhar. Mas eu só via o teu sorriso, pleno e confiante, de quem nunca me deixará cair. Tentava chamar-te, mas o silêncio era tudo o que obtinha como resposta. Levantei-me, então, com intenção de pegar na tua mão, mas, uma vez mais, foi um esforço débil. Porque a minha ultrapassou-a como uma névoa. E o meu coração pesou. Como é que te sentia tão perto, pai? Como é que, mesmo assim, permanecias tão inacessível? Estava em alvoroço emocional. E a tua imagem ia desaparecendo do meu campo de visão. Ainda tive tempo de te ver fechar o livro, afagando os meus caracóis. E, depois, o vazio. Acordei num sobressalto. E quase que podia jurar que a minha miniatura d' O Quebra Nozes - que me ofereceste no meu décimo aniversário - estava a piscar-me o olho. Recompus-me. Limpei a ficção que me fez deambular entre sonhos sucessivos, quase reais. E despertei convicta de que tudo não passou de um sinal. Vesti o meu casaco polar e subi ao sótão. Uma por uma, as decorações de Natal voltaram a invadir a sala. Era o nosso momento. Tínhamos um ritual bem definido e ninguém se atrevia a interrompe-lo. No dia do teu funeral, sem que alguém reparasse, coloquei um dos enfeites no teu bolso: um caçador de sonhos prateado. E não mais quis ficar responsável pela tarefa de montar a árvore. Tinha muito de ti e eu demorei a fechar a feria que a tua morte abriu. Mas, hoje, compreendi que uma nova luz voltou a brilhar. É dia 8 de dezembro. A minha mãe vem jantar connosco. E o Rui também deve estar quase a chegar. Surpreender-se-ão quando virem tudo decorado a rigor. E, por consequência, entenderão que o meu luto transformou-se. Demorou, mas as forças regressaram. É por isso que nunca ignoro os meus sonhos: algures nas entrelinhas, há mensagens que se destacam para nos fazerem renascer. Desligo as luzes. Deixo que a árvore branca ilumine o caminho. É nossa, pai. E tu estás de volta.