"O Quarto Protocolo" é uma história de traições, suspense e conspirações que nos leva ao tempo da Guerra Fria. Um erro, poderia ter despoletado uma nova guerra, com o receio de uma nova bomba nuclear a pairar sobre os estados europeus. Para mim, um livro que apesar de ter sido escrito em 1987, ainda me fez arrepiar pela sua atualidade e por me lembrar constantemente que sabemos muito pouco sobre as movimentações e acordos que são feitos atrás das cortinas. Este acordo, chamado de Quarto Protocolo, refere-se à assinatura de um documento concensual, entre os dois grandes blocos saído da Segunda Guerra Mundial e que estipulava a proibição do uso de armas nucleares.
Mas o enredo começa com um ladrão de jóias. Um ladrão que assalta uma casa e, rouba os famosos diamantes "Glen". Para os transportar, agarra numa bolsa que se encontrava na casa assaltada. Ao longo da narrativa, os diamantes acabam por passar para um papel secundário, pois é na bolsa que reside a informação principal. Dissimulada, está informação secreta importante, que mostra que existem fugas de informação ou, possivelmente, ações de contra-espionagem dentro dos serviços secretos.
O Plano Aurora, elaborado em segredo pelos soviéticos, vem dar a Valeri Petrofsky, uma arriscada tarefa: fazer detonar uma bomba nuclear norte-americana numa base aérea britânica, utilizada pela NATO, mais propriamente, na Escócia. O plano pretende simular um acidente e colocar o povo britânico, contra os seus aliados da NATO, dando assim força ao bloco ocidental.
Para o conseguir, todos os elementos que compõe o engenho têm de ser dissimulados e transportados para o Reino Unido, o que se revela uma tarefa meticulosa e de grande criatividade.
Nesta corrida contra o tempo para evitar um novo desastre nuclear, John Preston, investigador do MI5 - Serviço de Segurança Britânico - poderá ser o único a conseguir travá-lo, mas a sua tarefa começa a ser dificultada desde logo pelos seus superiores. John Preston está em Inglaterra por motivo de ter sido despromovido, depois de expor um homem que roubava segredos da NATO para os sul-africanos, sem saber que eles iam parar ao KGB. Esta parte da história, que possivelmente serve para nos dar a conhecer um pouco mais a fundo as personagens e as suas interligações, foge um pouco da temática inicial e leva o leitor até África, relatando aqui, também, as interferências da URSS e da NATO, em alguns estados africanos.
Preston, fica então com a função de supervisionar portos e aeroportos e, é nessas funções, que começa a perceber movimentações estranhas, como a chegada de falsos marinheiros, e a apreensão de um disco de polónio. Sob a protecção do director do MI5, Sir Nigel Irvine, Preston vai iniciar uma investigação, que o leva a Petrofsky.
Um autêntico thriller que pelas suas descrições detalhadas, me prendeu do principio ao fim, apesar de ter sido muitas vezes complicado perceber os meandros desta bem elaborada intriga ao mais alto nível de espionagem, que opõem os países ocidentais à própria URSS, na Era da Guerra Fria.
Frederick Forsyth é um autêntico mestre a interligar as suas personagens num denso enredo sem que se perca a vontade de continuar a ler. A dimensão do livro, poderá assustar alguns, mas no meu caso, demorei muito mais tempo que o normal a terminá-lo porque, por várias vezes, me vi impelida a ir pesquisar sobre a realidade dos factos. Uma das coisas que acho imprescindível que, ao lermos esta obra, tenhamos presente, é que a Guerra Fria é real. "Os EUA lideraram o Bloco Ocidental e a URSS o Bloco de Leste, criando organizações de âmbito politico, militar e económico para prolongar a sua influência. Foi neste quadro que surgiram o Plano Marshall e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) no primeiro bloco, ou o Plano Molotov e o Pacto de Varsóvia no segundo."
Não sabemos se houve um plano destes, nem se a haver se chamou Aurora, mas existe em São Petersburgo, na Rússia, um navio com uma grande história e importância para os soviéticos. O "Cruzador Aurora", que é um dos símbolos da Revolução de outubro de 1917, participou também em "três guerras – as duas guerras mundiais e a Guerra Russo-Japonesa."
No livro, Forsyth descreve também de forma bem detalhada a situação política britânica, com a iminência de eleições. No horizonte, está Margaret Tatcher, opositora dos movimentos operários. Tatcher defende aquilo que se viria a chamar neoliberalismo. "Coube a Margaret Thatcher liderar a reação da direita, dotá-la de um novo programa para a acumulação capitalista e romper o cerco que parecia condenar o imperialismo à decadência." Ao longo desta narrativa, vamos também tendo acesso a algumas das movimentações nos bastidores ingleses. Somos levados aos meandros da política, mas sem muito aprofundamento da questão.
Fontes:
https://ensina.rtp.pt/artigo/a-guerra-fria-as-razoes-do-antagonismo-entre-as-superpotencias/
https://existeumlugarnomundo.com.br/cruzador-aurora-uma-lenda-russa/
https://operamundi.uol.com.br/opiniao/margaret-thatcher-foi-a-grande-apostola-da-guerra-fria/