(...) «Rompia a madrugada e, na paz morta dos seres e das coisas, os campanários de seis aldeias falavam uma linguagem alta e religiosa. Pelos estábulos, um ou outro chocalho badalejava. Detrás da esquina, esperou Isaac que os pais saíssem de casa para a igreja. Primeiro apareceu o padre, trôpego, dobrado, de garnacha pelos ombros, o cálix debaixo do braço na bolsinha de chita vermelha; pouco depois a mãe, embrulhada no xaile preto de todos os dias, a tamancar.
Assim que desapareceram no cotovelo da rua, Isaac entrou para o quintal e daí, escalando a janela, penetrou em casa. Em seguida, destramente, servindo-se do podão com que o pai aparava as videiras, fez saltar a tampa, toda a parte superior da mesa em que era costume arrecadarem as economias. Ficavam-lhe, deste jeito, escancaradas as três gavetas. Procurando, entre papéis encontrou a caixinha amarela onde o padre metia as notas e moedas de prata: a caixa estava vazia. Revolveu os papéis: não encontrou nada. Nas outras gavetas havia malgas de marmelada, mecha para o isqueiro, circulares, pastorais, bulas velhas, receitas de botica, e papéis de vária ordem. Um a um examinou os sobrescritos na esperança de que um deles encerrasse dinheiro. Bem procurou: nem uma cédula de tostão descobriu. No meio da papelada, topou, com um retrato seu, cartas suas, cartas dos directores dos colégios por onde passara e outras cuja letra lhe não era familiar. E pôs-se a ler as que se lhe afiguraram de desconhecidos. Uma delas era de Norberto, datada do regimento, e rezava assim:
«Meu querido padrinho: lanço agora a mão à pena para lhes contar a minha triste vida. Saberá que tive oito dias de calabouço por ter rejeitado o rancho, em que um dos camaradas encontrou um rato morto. Só nos deram pão e água e eu levei o tempo a chorar, não tanto pelo mal que me faziam como pelas saudades que então me vieram da nossa casa. Meu querido padrinho, veja se me arranca a este degredo, senão mato-me. Os sargentos são verdadeiros cães para mim, e os soldados fazem troça de mim, dizendo que sou marranica, coisa que nunca ninguém me disse, mas em verdade porque eu não gosto de acompanhá-los para as moças do fado. Um dia destes, enquanto fazia guarda às cavalariças, arrombaram-me o baú e urinaram dentro. Tinha lá o resto dos dez tostões que me mandaram pelo Quim da Joana e mesmo esse lhes serviu. Fui-me queixar ao Tenente, mas ele pôs-se a rir e a mangar comigo. Ainda que me desfaça todo em vontadinhas, nada consigo. Sei bem o exercício e, a atirar, sou dos que melhor batem no alvo. Mas isso pouco vale, porque não sou bem-falante, nem ponho vulto ao pé dos alfacinhas. Estou a escrever, com os olhos rasos de água, enquanto não chega o meu quarto. Mandaram-me dizer que o Moiro estava surdo; coitadinho, não o mandem matar, que tão fiel era e tão amigo da égua! Tinha muita pena se fizessem mal ao pobre cãozinho, ainda que não ouça, nem seja lampeiro como nos bons tempos. Saibam que aqui encontrei um condiscípulo de Isaac; contou-me muitas anedotas dele e que era muito esperto, mas às vezes de génio derrancado. Sempre lhe arranjam um nicho? Se ainda anda metido com a Amada, deixem-no lá, que o dia de relego há-de chegar. Dêem-me novidades da terra e façam muitas visitas a quem por mim perguntar. Mandem-me dizer se o Mirlitão já casou com a Antónia Borralha. Deitem a benção a este seu filho Norberto Claro.» ...
(continua)
garnacha — vestimenta de padre.
Lampeiro — ligeiro, abelhudo, espevitado, metediço.
relego — descanso.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693
mangar
verbo
transitivo indireto e intransitivo
1 escarnecer fingindo seriedade; caçoar
Ex.: <crédulo e gentil, mangavam-lhe com a maior facilidade> <o pobre nem percebeu que estavam a m.>
transitivo indireto e intransitivo
2 expor (alguém) ao ridículo, ao desdém, por meio de atitudes ou palavras maliciosas ou irônicas; debochar, mofar, troçar
Ex.: <quem você acha que é para ficar mangando de todo mundo?> <estava sempre a m. e, se alguém se irritasse, pedia desculpas com a maior seriedade>
transitivo indireto e intransitivo
3 falar mentira; iludir, enganar
Ex.: <passou anos mangando da moça com promessas de casamento> <você está mangando, isso é impossível!>
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"