Tanta Gente, Mariana + As Palavras Poupadas
Alguém se lembra da primeira vez que li Maria Judite de Carvalho?
Tendo, na altura, começado precisamente pela colecção de contos Tanta Gente, Mariana, comecei esta obra por As Palavras Poupadas, pensando que talvez lesse apenas essa parte.
Tudo morre à noite, dizia Claude. Mas não, a vida é longa, desliza e escorre sem uma quebra. Uma sucessão de acontecimentos, uma corrente sem fim de palavras ditas e de palavras poupadas. Dessas principalmente. Tinha catorze anos nesse inverno e hoje tem trinta e quatro. Vinte anos em que nada morreu, nada, nem mesmo Claude, e em que pela manhã, ao acordar, tudo foi sempre dolorosamente igual ao que era ao adormecer. E ela ali está no mesmo sítio.
Claro que quando acabei o último conto da segunda colecção de contos, tornei à página 1 e reli aquela que é uma das minhas obras favoritas. A review que linkei acima, a minha, de 2015, e que versa apenas sobre o conto que dá título ao conjunto, não faz grande jus à obra; ainda assim, por esta vez, ficarei apenas por falar d'As Palavras Poupadas.
Mais uma vez, há um conto que empresta o título à colecção, sendo este conto mais longo que os seguintes - mais uma vez, todos eles estão recheados de solidão, de angústia, com personagens principais muitas vezes mulheres, quase sempre deslocados no cenário desolador de Lisboa, onde se encontram sozinhos, não obstante a cidade (e o mundo) ter, como nos diz o pai de Mariana, tanta gente.
A personagem principal deste conto é Graça, uma jovem viúva que se julga velha - uma personagem típica na obra de Maria Judite de Carvalho, a mulher de trinta e poucos anos acabada porque o seu casamento, por um motivo ou por outro, acabou. É no seu quotidiano banal, de recém-regressada a Lisboa, na frustração que revela com a empregada e com a vida, que o leitor se embrenha: há uma espécie de mistério, de palavras que ela guardou até demasiado tarde antes de revelar, que temos de descobrir entre analepses. Tal como Mariana, ou Dora, Graça não tem mais amor, não tem mais esperança, e os seus projectos de vida acabaram.
"Há quanto tempo morreu o teu marido?"
"Há seis meses. Fez ontem seis meses."
Nunca lhe contara o resto da história. Naquela noite ele não mostrara interesse (tinha uma aula importante no dia seguinte), depois, passado esse momento de dádiva, já Graça o não poderia fazer. Mesmo que quisesse. Nunca mais.
Muitos casais nos contos deste livro têm problemas fortes de comunicação - sabem não conseguir falar um com o outro, estarem entregues a uma vida rotineira e sem interesse. No entanto, Graça diz que o que a juntara a Claude fora o companheirismo, que viria a desaparecer com os anos. Curiosamente, já o pai de Graça, que nunca criou com esta grande relação, revelava desinteresse, desapego e indiferença pelo que Leda, a sua segunda esposa e madrasta da sua filha, tinha para contar após os encontros com as amigas; também Leda, que Graça afastara desde sempre, poderia estar sozinha, apesar de casada.
Graça sorri, vários sorrisos diferentes, para parecer menos só perante a sociedade, o mundo. Para disfarçar a incompreensão que sente, a solidão que a persegue e que vem de dentro.
Depois também aquilo a cansava e encontrava-se outra vez sozinha consigo própria. Era um encontro sem novidade e que a aborrecia sempre.
E Graça só quer fugir dos seus fantasmas, da sua própria vida, de um passado que a assombra e persegue - mas não é possível fugir de nós próprios.
Acrescento só que todo o volume é maravilhoso e merecedor de ser comprado, pois reúne duas colectâneas de contos fabulosas. E a capa, pintada pela autora?
5/5, claro
Podem comprar esta edição aqui.



