25
Set25
Maria do Rosário Pedreira
Nem sempre é fácil compreender as influências de determinado escritor, especialmente quando começa o seu percurso, por assim dizer, mais profissional; mas há casos em que saltam logo à vista os escritores que leu e por quem se apaixonou. Lembro-me de sentir que Borges estava muito presente na cultura de Afonso Cruz quando li a sua primeira Enciclopédia Universal, por exemplo, e agora é mais do que evidente a paixão reverencial de Miguel Bonnefoy por Cem Anos de Solidão no romance-homenagem O Sonho do Jaguar, que recebeu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa e o Prémio Femina, tendo sido ainda finalista do Prémio Médicis, do Prémio Renaudot e do Prémio Jean Giono. O autor, que viveu em Portugal e está agora em França (escreve, aliás, em francês), é filho de um chileno e de uma venezuelana, e escolhe precisamente Maracaíbo, na Venezuela, como lugar de acção, e como personagens três membros de uma mesma família cuja história começa com um órfão abandonado à porta de uma igreja e recolhido por uma pedinte. Às muitas semelhanças com o romance de García Márquez soma-se uma cultura vastíssima, um trabalho brutal sobre as metáforas e, sobretudo, um ritmo alucinante e uma imaginação prodigiosa. Embora me pareça que no fim esmorece ligeiramente (talvez pelo exacerbamento anterior), é uma homenagem incrível ao nobelizado colombiano e a um estilo que agora os latino-americanos acham fora de moda, mas que fez história durante décadas. Leia-se, claro.