Por José Reinaldo do Nascimento Filho

A primeira notícia ruim do dia chegou cedo aos ouvidos do pequeno Jammu. Durante a noite sua ovelha fugira do aprisco, cuidadosamente preparado por ele e seu irmãozinho Kashmir, na extinta noite do dia 13 julho de 1999. “Precisamos procurá-la o quanto antes”, disse o pequeno. “Vamos então”, responde o menorzinho. Apesar do cansaço aparente, preparam-se candidamente para prosseguir sua viagem. Arrumam suas coisas, descem da árvore, dizem adeus ao lar, decoram novamente seus corações com esperança e, então, seguem em direção à estrada principal.

“Não aguento mais dormir em árvores! Devo ter quebrado umas dez costelas, e além do mais, estou faminto. Acho que devemos comer a zurur”.

O olhar repreensivo do irmão fez Kashmir estremecer. “Estava apenas brincando. Não precisa me olhar desse jeito”. O silêncio do pequeno faz o menor lacrimejar. “Nunca mais fale isso, está me entendendo?! Nunca mais! E me dê esse canivete, criança não pode andar com arma”.

Pobre criatura. Sonhava ele constantemente com armas e mais armas em suas mãos, ao tempo que corria nu ao redor de cadáveres ressequidos e sujos de uma pasta negra, composta de sangue e terra; a mesma que tantos desejam, agora ele pisava como um rei em seu quintal. Terá sido seu passado tão violento a ponto de preencher suas curtas noites de sono com os mais longos e torpes pesadelos? Queria ele ter uma arma e asas. Asas que pudessem tirá-lo daquele ambiente sujo, violento e inóspito aos anjos. “Cairia bem uma arma”, pensava ele.

Calma, não chore… Ei, ei, não chore… logo estaremos em casa”.

O caminho até  Kargil parecia não ter fim. O ambiente denso e sombrio das enormes árvores, juntamente com o zurrar dos animais, incitavam a sensação claustrofóbica nos pequenos nômades, fazendo-os olhar, convulsivamente, em todas as direções. Como um em dois, o pequeno segurava fortemente a mão do menor, formando um único membro enleado. Cansados de andar, e mastigados pela fome cotidiana, pararam embaixo de uma frutífera árvore; alimentaram-se daquilo por ela oferecido, descansaram sob seus sonolentos galhos e, por fim, prosseguiram.

Sem remorso; sem angústia”.

Sem remorso; sem angústia”, repete Kashmir.

Após algumas horas de caminhada, os irmãos resolvem fazer uma pausa para descansar. Sentados sobre algumas folhas cuidadosamente organizadas, Jammu começa a descascar, com um pequeno canivete feito de madeira virgem, algumas frutas silvestres para seu irmãozinho.

Está vendo aquelas árvores logo ali? Chegamos” – Kashmir esboça um curto sorriso. “Alegria! Estamos quase lá!”.

E a zurur?”

Vamos encontrá-la, não perca as… ouviu isso?”.

O quê?”

Abaixe-se, e fique aí”.

Aproveitando-se da pequenez do seu corpo, ele esgueira-se por entre as plantas, e segue em direção ao ruído. Ao se aproximar é surpreendido: era a zurur. Com um grande sorriso estampado ele corre até seu pequeno animal. Aproximando-se da pequenina, descobre o porquê de tal ruído: zurur estava gravemente machucada. Todo o seu pelo lanoso, que outrora fora branco, agora estava coberto de sangue coagulado. Passo a passo o garoto diminuía a distância entre ele e a ovelha ferida, mas ao tocá-la, esta se assusta e corre em direção à estrada. Nesse momento se ouve um estampido. Aviões cortam o céu cinzento. Clarões atravessam os espaços abertos entre as árvores, e tufões violentos arremessam os dois garotos ao chão. Mestras em prodigalizar destruição, em instantes suas crias transformam a fauna e flora, num amálgama de cores distorcidas e flamejantes. Árvores caem; animais correm e voam aleatoriamente. Em instantes aquele ambiente fechado transforma-se em uma enorme clareira. Kashmir começa a chorar desvairadamente. “Eu não falei para você ficar?! Agora Cooorre!”. Mas ele não se movimenta: como a centenária árvore que cobria o quintal do seu antigo lar, seus pés estavam cravados ao chão. O pequeno se ajoelha diante do irmão, segura fortemente seu rosto, e começa a gritar: “KASHMIIIRRR! KASHMIIIRRR! KASHMIIIRRR! KASHMIIIRRR! ACORDAAAAAAA! Os olhos arregalados clamavam por socorro, as narinas muito abertas e aquela respiração estertorosa de bicho sufocado, denunciavam todo o horror sentido pelo seu pequeno coração. Novamente uma explosão, mas agora próxima deles. Jammu cobre o protegido com seu tronco – no entanto descobre, tardiamente, não ser o suficiente: seu corpo não diferia em muito do irmão; a escassez de alimentos mais o grande volume de doenças nivelaram seus corpos macérrimos. Seu rosto que, pensava ele, ser suficiente para resguardar o do irmão, agora estava embevecido de sangue alheio. Após limpar sua face, Jammu olha para Kashmir e constata o pior: o rosto era uma pasta escura e retalhada coberto de buracos que esguichavam sangue; a boca, sem lábios, mostrava dentes expostos e vermelhos; os olhos esbugalhados ganharam uma tonalidade arroxeada, a língua fora da boca. Uma poça de sangue crescia sob os pés do protetor, e em pouco tempo tornara-se um ribeiro espumoso e vermelho.

Ajoelhado em meio ao sangue fraterno, o pequeno parecia ter desistido de lutar. Absorto na incerteza e perseguido pelas efígies cadavéricas que urgiam do seu inconsciente, seus braços respondiam com a incerteza e fraqueza dos inocentes, dando como resposta a soltura do irmão em solo maculado. Concomitantemente à ressonância da queda, novas explosões sacudiram o ambiente, e trouxeram com ela carros, tanques, soldados e mais destruição. Estavam no centro da clareira quando os dois grupos inimigos percorreram o espaço aberto em direção ao confronto iminente. Vociferando grotescos urros que incitavam o ódio, corpos mutilados dançavam na cadência dos tiros, e granadas harmoniosamente atiradas para todos os lados produziam uma pegajosa pasta de sangue misturada à terra virgem, que caia sobre as duas crianças.

Voltando do inóspito transe, o pequeno não sabia mais para onde olhar: se para as balas que caíam sobre ele como orvalhos de sangue, ou para o irmão, caído e inerte em meio àquela guerra que não lhes pertencia. Era preciso tomar uma decisão, e ele sabia a qual. “Sem remorso; sem angústia”, ruminava o perdido. Uma mente amadurecida antes do período de colheita; uma alma usurpada pelo pecado da intolerância; um anjo sem asas. “Corrre, Jammu! Corre!”, gritava uma voz dentro da sua cabeça. Então ele corre. Percorrendo aqueles vultos armados que olhavam para ele com indiferença tempestuosa, o garoto corre em direção à estrada principal e, ao sair da clareira, depara-se com uma imagem que o deixou atônito:

Mais guerra.

*** Pág. 99 **

Guerra de Kargil –

http://pt.wikipedia.org/wiki/Conflito_na_Caxemira#Conflito_de_Kargil

em 14/05/2010.

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

A primeira notícia ruim do dia chegou cedo aos ouvidos do pequeno Jammu. Durante a noite sua ovelha fugira do aprisco, cuidadosamente preparado por ele e seu irmãozinho Kashmir, na extinta noite do dia 13 julho de 1999. “Precisamos procurá-la o quanto antes”, disse o pequeno. “Vamos então”, responde o menorzinho. Apesar do cansaço aparente, preparam-se candidamente para prosseguir sua viagem. Arrumam suas coisas, descem da árvore, dizem adeus ao lar, decoram novamente seus corações com esperança e, então, seguem em direção à estrada principal.

Não aguento mais dormir em árvores! Devo ter quebrado umas dez costelas, e além do mais, estou faminto. Acho que devemos comer a zurur”.

O olhar repreensivo do irmão fez Kashmir estremecer. “Estava apenas brincando. Não precisa me olhar desse jeito”. O silêncio do pequeno faz o menor lacrimejar. “Nunca mais fale isso, está me entendendo?! Nunca mais! E me dê esse canivete, criança não pode andar com arma”.

Pobre criatura. Sonhava ele constantemente com armas e mais armas em suas mãos, ao tempo que corria nu ao redor de cadáveres ressequidos e sujos de uma pasta negra, composta de sangue e terra; a mesma que tantos desejam, agora ele pisava como um rei em seu quintal. Terá sido seu passado tão violento a ponto de preencher suas curtas noites de sono com os mais longos e torpes pesadelos? Queria ele ter uma arma e asas. Asas que pudessem tirá-lo daquele ambiente sujo, violento e inóspito aos anjos. “Cairia bem uma arma”, pensava ele.

Calma, não chore… Ei, ei, não chore… logo estaremos em casa”.

O caminho até  Kargil parecia não ter fim. O ambiente denso e sombrio das enormes árvores, juntamente com o zurrar dos animais, incitavam a sensação claustrofóbica nos pequenos nômades, fazendo-os olhar, convulsivamente, em todas as direções. Como um em dois, o pequeno segurava fortemente a mão do menor, formando um único membro enleado. Cansados de andar, e mastigados pela fome cotidiana, pararam embaixo de uma frutífera árvore; alimentaram-se daquilo por ela oferecido, descansaram sob seus sonolentos galhos e, por fim, prosseguiram.

Sem remorso; sem angústia”.

Sem remorso; sem angústia”, repete Kashmir.

Após algumas horas de caminhada, os irmãos resolvem fazer uma pausa para descansar. Sentados sobre algumas folhas cuidadosamente organizadas, Jammu começa a descascar, com um pequeno canivete feito de madeira virgem, algumas frutas silvestres para seu irmãozinho.

Está vendo aquelas árvores logo ali? Chegamos” – Kashmir esboça um curto sorriso. “Alegria! Estamos quase lá!”.

E a zurur?”

Vamos encontrá-la, não perca as… ouviu isso?”.

O quê?”

Abaixe-se, e fique aí”.

Aproveitando-se da pequenez do seu corpo, ele esgueira-se por entre as plantas, e segue em direção ao ruído. Ao se aproximar é surpreendido: era a zurur. Com um grande sorriso estampado ele corre até seu pequeno animal. Aproximando-se da pequenina, descobre o porquê de tal ruído: zurur estava gravemente machucada. Todo o seu pelo lanoso, que outrora fora branco, agora estava coberto de sangue coagulado. Passo a passo o garoto diminuía a distância entre ele e a ovelha ferida, mas ao tocá-la, esta se assusta e corre em direção à estrada. Nesse momento se ouve um estampido. Aviões cortam o céu cinzento. Clarões atravessam os espaços abertos entre as árvores, e tufões violentos arremessam os dois garotos ao chão. Mestras em prodigalizar destruição, em instantes suas crias transformam a fauna e flora, num amálgama de cores distorcidas e flamejantes. Árvores caem; animais correm e voam aleatoriamente. Em instantes aquele ambiente fechado transforma-se em uma enorme clareira. Kashmir começa a chorar desvairadamente. “Eu não falei para você ficar?! Agora Cooorre!”. Mas ele não se movimenta: como a centenária árvore que cobria o quintal do seu antigo lar, seus pés estavam cravados ao chão. O pequeno se ajoelha diante do irmão, segura fortemente seu rosto, e começa a gritar: “KASHMIIIRRR! KASHMIIIRRR! KASHMIIIRRR! KASHMIIIRRR! ACORDAAAAAAA! Os olhos arregalados clamavam por socorro, as narinas muito abertas e aquela respiração estertorosa de bicho sufocado, denunciavam todo o horror sentido pelo seu pequeno coração. Novamente uma explosão, mas agora próxima deles. Jammu cobre o protegido com seu tronco – no entanto descobre, tardiamente, não ser o suficiente: seu corpo não diferia em muito do irmão; a escassez de alimentos mais o grande volume de doenças nivelaram seus corpos macérrimos. Seu rosto que, pensava ele, ser suficiente para resguardar o do irmão, agora estava embevecido de sangue alheio. Após limpar sua face, Jammu olha para Kashmir e constata o pior: o rosto era uma pasta escura e retalhada coberto de buracos que esguichavam sangue; a boca, sem lábios, mostrava dentes expostos e vermelhos; os olhos esbugalhados ganharam uma tonalidade arroxeada, a língua fora da boca. Uma poça de sangue crescia sob os pés do protetor, e em pouco tempo tornara-se um ribeiro espumoso e vermelho.

Ajoelhado em meio ao sangue fraterno, o pequeno parecia ter desistido de lutar. Absorto na incerteza e perseguido pelas efígies cadavéricas que urgiam do seu inconsciente, seus braços respondiam com a incerteza e fraqueza dos inocentes, dando como resposta a soltura do irmão em solo maculado. Concomitantemente à ressonância da queda, novas explosões sacudiram o ambiente, e trouxeram com ela carros, tanques, soldados e mais destruição. Estavam no centro da clareira quando os dois grupos inimigos percorreram o espaço aberto em direção ao confronto iminente. Vociferando grotescos urros que incitavam o ódio, corpos mutilados dançavam na cadência dos tiros, e granadas harmoniosamente atiradas para todos os lados produziam uma pegajosa pasta de sangue misturada à terra virgem, que caia sobre as duas crianças.

Voltando do inóspito transe, o pequeno não sabia mais para onde olhar: se para as balas que caíam sobre ele como orvalhos de sangue, ou para o irmão, caído e inerte em meio àquela guerra que não lhes pertencia. Era preciso tomar uma decisão, e ele sabia a qual. “Sem remorso; sem angústia”, ruminava o perdido. Uma mente amadurecida antes do período de colheita; uma alma usurpada pelo pecado da intolerância; um anjo sem asas. “Corrre, Jammu! Corre!”, gritava uma voz dentro da sua cabeça. Então ele corre. Percorrendo aqueles vultos armados que olhavam para ele com indiferença tempestuosa, o garoto corre em direção à estrada principal e, ao sair da clareira, depara-se com uma imagem que o deixou atônito:

Mais guerra.

                  • Pág.99

Guerra de Kargil – http://pt.wikipedia.org/wiki/Conflito_na_Caxemira#Conflito_de_Kargil.Acesso em 14/05/2010.