07

Dez20

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que já consigo falar dele sem me virem as lágrimas aos olhos (custou a sua morte), queria dizer que não conheci mais nenhum intelectual do seu gabarito em Portugal com tanta graça e tão pouca vaidade. Sim, refiro-me ao enorme Eduardo Lourenço, uma pessoa que não tinha peneiras nenhumas e estava cheio de razões para as ter. Era mesmo muito engraçado. Um dia, nas Correntes d'Escritas, eu estava sentada num pequeno sofá junto à recepção do hotel a ler o Diário de Notícias; o DN, nessa altura, tinha um caderno central de publicidade a cores, pejadinho de anúncios eróticos a massagens e saunas, com rabos e maminhas a transbordarem de lingerie de renda, e eu tinha pousado essas páginas centrais ao meu lado enquanto lia o resto. Pois bem: o professor agarrou no caderno, sentou-se ao meu lado e só depois olhou para o que tinha na mão. Abriu-o, folheou e depois olhou para mim a sorrir e disse: «Aqui está o maior bordel portátil da Europa.» Genial, como sempre. Cheio de um humor que não tem equivalente em mais nenhum dos nossos pensadores ou ensaístas, todos demasiado sérios. Teremos saudades também da sua graça.