Reavivar os mortos
jornalismo, redes sociais, crítica cultural, espetacularização da mídia, degradação profissional
Affonso Duprat Vai chegar uma hora em que não haverá mais jornalistas em redações. Nem redações. Ao invés disso, uma sala, nem tão grande, mas instagramável. Repleta de badulaques, lantejoulas, luzes piscantes e figurinos. Uma espécie de camarim onde não há a magia do teatro, com personagens amadoras que não aguentariam uma temporada na ribalta. À mercê de tomatadas, buscam aplausos silenciosos nas redes que dominam. É o toque frio da indiferença. Ela está nos bolsos, a um palmo, alimentada por um carregador. Na sanha de atrair multidões, o jornalismo, essa instituição sagrada para a democracia, recebe pesadas mãos de maquiagem. O jornalista está perto de se tornar um palhaço triste que, obrigado a performar (essa é a palavra da vez), se vê em arapucas. Sua formação: animador de palco. Especialista nos temas mais profundos, como a cor da calcinha da finada Rainha Elizabeth ao implante dentário do Conde Drácula. Quem consome jornalismo tende a retribuir não com uma assinatura, mas com uma sufocante indiferença. Um repórter, para fazer seu trabalho, tem que estar bem alimentado. Fast-food adoece. Na feira-livre do jornalismo, ao contrário das formulas enlatadas das grandes cadeias, estão os flagrantes que saltam aos olhos. É preciso conversar com pessoas, das mais variadas tribos, andar pela cidade, investigar causos aparentemente sem importância. Remexer em papéis e sujar as mãos. Espirrar com ácaros. Devorar os livros. Tirar a camada de poeira do couro cabeludo. Às vezes, colocar o telefone no modo silencioso. A última pá de cal recai sob o ofício. Computadores, coisa do passado. Se faz jornalismo com um celular em mãos. Adeus, cameraman. Adeus, revisor. Adeus, iluminador. Adeus, editor. Adeus. Basta um golpe de frases genéricas. Papo de autoajuda. Papo furado. Não fure a bolha, engorde-a. A discordância nunca foi tão necessária. Existe briga, isso sim, e uma cacofonia. Os flashes perfuram as paredes das casas. Acabou a intimidade. É tempo de show de horrores pra atrair as multidões. A parede invisível que separava o leitor do escritor foi demolida. Agora, o pobre escriba está à mercê dos anseios e surtos de seus seguidores, que na verdade são ilustres desconhecidos com pedras nas mãos. Um like e você será esquecido para sempre. A menos que sua opinião suscite uma boa briga. E é esse o objetivo. A truculência. O malfazejo. A destruição das reputações e a subserviência à mediocridade. O que abre. O que fecha. O que mudou e o que mudará depois de amanhã. Quem são os nomes da vez? O que as pessoas estão falando? A música mais ouvida no momento. O filme que encalhou no cinema. O livro que todos estão falando – existe um livro que as pessoas estão falando? Fazer perguntas e não economizar no ponto de interrogação. Ousar, ver onde não se deve. Abrir portas escondidas. Fuxicar, no bom sentido, em arquivo morto. Reavivar os mortos.
Texto originalmente publicado em Revista Fina