04
Set23
Maria do Rosário Pedreira
Descobri há uns tempos, por recomendação de amigos, uma série de pequeninos livros belíssimos, publicados com a chancela BCF. O «B», descobri bem mais tarde, é de «Brito» e tem que ver com o nome de um dos proprietários, o filho do saudoso editor Manuel Brito, da Contexto, onde Al Berto publicou a sua obra. O primeiro desta série que li (e de que aqui falei) foi a pérola escrita pela cineasta Chantal Ackerman, Uma Família em Bruxelas; e agora estou a terminar As Malditas, o primeiro romance da argentina Camila Sosa Villadas. Trata-se de um história tremenda e dura sobre um grupo de travestis nos anos em que a SIDA começa a ceifar vidas, curiosamente contada por uma delas: a própria Camila, que nasceu rapaz, e negro, e pobre, em Córdoba, Argentina. (Se viu a série espanhola Veneno, é algo do mesmo tipo.) E não escrevo «trans» porque a autora acha a palavra que a Europa e os EU usam hoje algo eufemística, mas é na verdade um livro sobre meninos e rapazes que sempre se sentiram raparigas, sempre gostaram de vestir saias e de se pintar, que injectaram silicone nas mamas e nas nádegas, raparam os pelos, fizeram operações, que se prostituíram, tiveram chulos, foram maltratadas, presas, gozadas. Mas é também uma história de gente imensamente solidária, sensível, inclusiamente capaz de recolher um bebé encontrado no cesto de lixo de um parque ou receber uma mãe solteira para ter o seu filho no bordel. Penso que todos nós beneficiaríamos com esta leitura antes de darmos opiniões sobre aquilo que não conhecemos sobre a problemática trans. A história pessoal da narradora, bem como das suas muitas amigas, é realmente comovente e capaz de iluminar. A única coisa que não apreciei especialmente foi uma tentativa algo forçada de introduzir um elemento de realismo mágico (a uma das travestis, a María muda, crescem penas no corpo), mas, enfim, é um pormenor.