A Namorada Infiel… | José Couto Nogueira
A Namorada Infiel, O Amigo Incompetente e outras crónicas sobre o sentido da vida, resumem mais de um ano de atividade do autor como cronista do jornal i. Não estamos perante o formato clássico de autoajuda sobre questões sentimentais ou outros achaques com que a vida nos surpreende, mas nas respostas às questões éticas colocadas pelos leitores, desde relacionamentos íntimos ou sociais, até ao comportamento no emprego ou nos negócios. A eterna pergunta: se os fins justificam os meios.
Sem uma visão moralista, o autor não hesita em responder que sim, podem justificar-se. O caminho ético não é uma chave absoluta, pois deve subordinar-se à busca da felicidade. Rejeitando cedências a qualquer tipo de fundamentalismo, o autor afirma que às vezes uma atitude eticamente repreensível funciona maravilhosamente e não faz mal a ninguém. Antes pelo contrário, ficam todos felizes, o que é precisamente o objectivo da ética. O que nos remete para o papel da verdade nua e crua e da frontalidade nas nossas relações, tema que o autor aborda com a lucidez e a tranquilidade que o caracterizam.
Encontramos nestas crónicas ideias claras sobre a fronteira moral e religiosa com que a ética se debate. Somos um produto do meio cultural em que nascemos e isso marca a nossa natureza e impõe limites ao nosso comportamento, mesmo quando do ponto de vista ético isso seja inócuo. Nas preocupações dos leitores surge, frequentemente, o papel da mentira ou do portador das más notícias – quando se trata de dizer a verdade-, o que nos mostra um povo preocupado com as práticas da boa cidadania. Mas, como sabemos, não existe um método científico que se aplique ao ser humano, pois ao efeito da memória, sobrepõe-se uma capacidade de aprendizagem, mesmo que reduzida.
Este é um cronista que não se mostra zangado com a vida, encarando-a com um saudável sentido de humor, como quando recomenda a uma leitora que confirme sempre as suas suspeitas por duas fontes independentes e seguras, como se fazia no tempo do jornalismo de antigamente, pré-televisivo. E tal como nesse tempo, o estilo literário é cuidado, como quando numa imagem, pesa o que tem a dizer: não chame a tempestade, quando se trata apenas de uma mudança de vento.
Como escreve uma leitora, todos pretendemos encontrar a felicidade mantendo a vertente ética. Este é um livro para ser lido sem a ira dos pudicos ou o voyeurismo dos pategos, destina-se a um leitor que deseja desafiar os limites do entendimento ético das coisas da vida. Afinal, ao longo dos tempos, quantas vezes os princípios éticos foram esmagados pelas necessidades práticas? Nessa vida que, como nos recorda a citação do poeta, é um voo cego a nada.