Explosão numa Catedral. Este é o título norte-americano de O Século das Luzes, o mais famoso romance de Alejo Carpentier, de 1962, reaparecendo agora  em nova e  arejada tradução (de Sérgio Molina). O sentido arquitetônico e uma conhecida tirada de Marx  (“tudo o que sólido desmancha no ar”) ficam bem claros na imagem que evoca por um lado a solidez (a catedral) e, por outro, a desestabilização (a explosão). E é esse o legado de Victor Hughes, francês que vem implantar a Revolução Francesa no Caribe, para a vida dos primos Esteban e Sofia, os quais moram em Havana numa mansão labiríntica, barroca, em completa desordem. Ao adentrar a morada e ordená-la (bem ao gosto francês), Hughes no entanto os desenraíza, deslumbrando-os com o espetáculo de uma mudança da humanidade através do ato revolucionário que, entretanto, acaba tendo a Guilhotina como fetiche (ela também é trazida da França para impor Ordem e Progresso aos tristes trópicos).

    Primeiro, Carpentier nos mostra Hughes sob o ponto-de-vista de Estebán, que o acompanha de Cuba à França, e depois novamente à América (Guadalupe, Guiana, Suriname, Venezuela). Boa parte de O Século das Luzes é dedicada à educação sentimental do jovem cubano e sua desilusão diante da associação Revolução-Guilhotina. Retornando ao lar, Estebán descobre-se apaixonado pela prima que, ao ficar viúva, foge ao encontro de Hughes, para se tornar companheira de um Titã, envolvido numa nova épica da humanidade. É a derradeira apertada no parafuso do desencanto: com a ascensão de Napoleão, a Revolução aburguesou-se e até se revoga o decreto que abolira a escravidão nas possessões francesas.

    Fica evidente que, sendo cubano, Carpentier está nos contando também, por alusão, o fracasso do Mito da Revolução Russa e sua adaptação aos trópicos por Fidel Castro através do seu luxuriante resgate da mentalidade do final do século XVIII.

    Pois  O Século das Luzes é um banquete de linguagem, nas mãos de um narrador que tem o gosto inventariante, o prazer de encampar o teatro do mundo através das palavras, na melhor tradição da língua espanhola.

    Na semana passada, comentei A Vida Breve, do uruguaio Juan Carlos Onetti, um livro maravilhoso. Nele, a linguagem é rarefeita, cônscia da sua insuficiência. É algo que os leitores de Clarice Lispector conhecem bem.

    Se Onetti deve ser colocado ao lado da autora de A Maçã no Escuro, Carpentier estaria definitivamente ao lado de Guimarães Rosa. Sem escamotear  o lado mais incômodo do ato de existir, escritores como eles potencializam a linguagem de uma tal forma que ela parece por si só ser  uma demonstração de otimismo, como se fosse responsável pela povoação do mundo, por preenchê-lo com a luz do seu Verbo (talvez nem todos concordem, mas Grande Sertão: Veredas é um livro radiante). Num dos mais belos momentos de O Século das Luzes, Esteban, que serve Hughes como escrivão de uma flotilha de corsários (a serviço da “Revolução”), encontra um desconhecido arquipélago: “Nenhuma dessas ilhas era semelhante à seguinte e nenhuma era feita da mesma matéria… Esteban sentia-se inclinado a exprimir seu assombro diante das coisas posta ali, inventando-lhes nomes” e daí segue-se um longo e nada fastidioso catálogo desses nomes inventados para fazer existir enfim esse lugar inédito.

    Essa investimento na Palavra, no seu poder, não tem nada a ver com a retórica pomposa e vazia dos que usam a linguagem de forma corrompida e transformam a Razão num sono de monstros, como outra passagem relacionada a Esteban pode comprovar. Ele vai a um hospital na holandesa Paramaribo e vê uma fila de negros: “E o jovem soube com horror que esses escravos, convictos de revolta e tentativa de fuga, haviam sido condenados pela Corte de Justiça do Suriname à amputação da perna esquerda. E como a sentença tinha de ser executada de maneira limpa e científica, sem o uso de processos arcaicos, próprios de épocas bárbaras, que causavam excessivo sofrimento e punham em risco a vida do condenado, os nove escravos eram levados ao melhor cirurgião de Paramaribo para que este, de serra em punho, cumprisse a decisão do Tribunal.” 

(resenha publicada  originalmente em 22  de janeiro de 2005  em A TRIBUNA de Santos)