Existem inúmeros filmes e livros que retratam os períodos de descobertas e primeiros amores de adolescentes, jovens e adultos. Sempre fui muito afetado por esse tipo de estrutura narrativa. Acredito — e, depois de muitos anos de terapia, entendo melhor — que, por não ter vivido essas descobertas no tempo esperado, acabei suprindo a falta e descompasso consumindo enredos juvenis, ora felizes, ora nem sempre bem resolvidos. Quando analisamos obras centradas em questões LGBT+ e recortamos seus enredos — e o leitor que parar para pensar com certeza encontrará — sobram bons exemplos que não apresentam o tão esperado “final feliz” recorrente nas histórias que aqui me refiro.
Essas elucubrações me vieram quando estava imerso nos rios narrativos de Raul Damasceno, escritor cearense formado em História, que, depois de se aventurar na escrita compondo roteiros, apresenta o seu primeiro romance: O rio que me corta por dentro (Astral Cultural, 2025).
Os anos se passam; a amizade entre Cícero e Luzimar se transforma em amor, e o desejo de descobrir o que aconteceu com a mãe vira uma necessidade. A resposta desse mistério está com a professora Toin, que, ao fugir da cidade, deixa uma carta escondida em um exemplar do livro Grande sertão: veredas. Nela, revela que o pai de Luzimar matou Aneci — um estupro seguido de morte. O corpo está enterrado no quintal da casa de Toin, quem pediu para sepultá-lo — ato que, a princípio, não iria acontecer, visto que Chico Matoso pretendia deixar o corpo aos urubus.
A partir dessa revelação, Cícero passa a desejar vingança. Na primeira tentativa do seu plano, mata um inocente e a relação com Luzimar é abalado. Quais caminhos seguir quando seu par romântico é filho do homem que matou a sua mãe? Esse questionamento domina as partes finais do romance feitas de uma série de peripécias para que Cícero não seja morto por Chico Matoso e consiga, enfim, viver bem ao lado de seu amado, perto do mar.
“[...] As flores se desprendiam dos fios de seu cabelo enquanto, em vão, ela se esforçava para deter a invasão do seu ingênuo corpo por aquele homem. O Cabra-cabriola. Sob o olhar de Aneci, o céu azulado daquela tarde nublou de repente. Largada por aquele bicho, que a devorou o quanto quis, Aneci era só mais uma daquelas folhas caídas, frágeis, secas, que se quebravam por qualquer coisa.” (p. 95)
Mas nem toda água de rio é tão tranquila. Existem momentos de cabeça d’água, quando o curso, de repente, fica violento e volumoso. Isso ocorre quando Cícero — até então vivendo a calmaria do primeiro amor e das primeiras descobertas envolvendo sexo e sexualidade — é transformado pela descoberta da carta e vai desenterrar o corpo da mãe no terreno da antiga professora. Esse episódio ocasiona um segundo momento da narrativa, funcionando como um rito de passagem da adolescência sonhadora para uma juventude feita da realidade nua e crua.
“Agora já não lhe servia a pá; jogou a ferramenta longe e se ajoelhou para cavar a terra com as próprias mãos. A força se esvaindo pela boca, o peito ardendo.
E estremeceu ao tocar o primeiro osso, arredondado e sujo, a cabeça.” (p. 123)
Se a cabeça d’água está inserida nos acontecimentos, existe também um momento de transformação final. Ao desejar vingar a morte da mãe, enquanto Luzimar se vê numa encruzilhada entre o pai e o homem que ama, a narrativa caminha para um desfecho explosivo — uma pororoca. Ainda assim, o leitor tem a certeza de que o percurso deste rio narrativa chegou ao fim; o encontro das águas do rio com o mar é violento, mas inevitável. A confirmação vem quando Cícero consegue sair do interior, escapar das garras de seu algoz e, já na cidade grande, encontra o mar pela primeira vez ao lado do amado — aquele que tem o mar no nome e traz luz à sua vida.
“Era a primeira vez que Cícero encontrava o mar.
Luzimar também. Sentaram-se na areia, um ao lado do outro, e assistiram, maravilhados e em silêncio, ao ir e vir infinito das ondas que se repartiam em muitas outras.
Um azul do céu caído na terra.” (p. 169)
O rio faz o caminho da nascente até o mar. Ao ler o romance de Raul Damasceno, percebemos esse mesmo trajeto. Da infância sob os cuidados da avó, passando pelos segredos escondidos no fundo do rio, pelas bonanças e belezas de águas cristalinas, pelas cabeças d’água e pela pororoca final — tudo inserido no percurso do rio-Cícero. Trata-se de um livro poético, de capítulos curtos e leitura ágil. Não por acaso, o autor é roteirista; percebe-se uma dicção fílmica, com ótimos ganchos e imagens de forte carga poética. O rio tem sua potencialidade e especificidade, e Raul Damasceno, com O rio que me corta por dentro, também.