Também li Tropic of Cancer há mais de dez anos, mas nunca li nada de Anaïs Nin.
Esta belíssima novela gráfica, da autora suíça Léonie Bischoff, inspira-se na vida de Anaïs Nin, nomeadamente no seu “eu” criativo, com base na sua obra publicada e nos seus diários.
O título parece bem escolhido, não só pelas metáforas do mar que Bischoff ilustra ao longo da obra, mas também pela vida quase dupla que Anaïs Nin leva, mantendo até duas versões do seu diário: aquela que dá ao seu marido, Hugo, para ler, enquanto exercício criativo da sua escrita, e o outro, “verdadeiro”, no qual escreve sobre as suas aventuras e fantasias sexuais com terceiros (Henry, June, o seu professor de dança, um primo, os seus psiquiatras e até o próprio pai). Julgo que terá sido a segunda versão que veio a ser publicada mais tarde - e mesmo a veracidade destes diários poderá ser questionável, talvez algumas partes exercícios de escrita criativa (quero não acreditar na relação com o pai).
Mas desengane-se o leitor: Anaïs Nin podia ter relações extra-conjugais com outros homens e mulheres, mas o seu amor pelo marido era muito - e, aliás, as biografias de ambos parecem confirmar isto. Hugo também tinha uma veia criativa, mas decidiu dedicar-se a uma carreira num banco para manter o estilo de vida de ambos.
A leitura pode-se tornar desconfortável, especialmente para quem não saiba muito sobre a vida de Anaïs Nin antes de partir para esta obra: a história tem muito de escandaloso, e não foge a descrever as aventuras sexuais de Nin, que foi decerto uma personalidade complexa. Não sabendo muito sobre a vida dela, é-me impossível dizer o quão fiel é aos seus diários, que partes podem ter sido alteradas, mas acredito que tudo tem base na realidade da sua obra e o resultado final é uma leitura emocionante e introspectiva.
O livro é lindíssimo, com um traço que parece lápis de cor, em tons verdes, azuis e roxos; além das alusões ao mar, há alusões à natureza e a flores, e a utilização do fundo preto em momentos mais sombrios. O traço é delicado e parece condizer com a fragmentação e duplicidade que a autora quer atribuir à figura de Nin, indecisa, criativa, artista torturada que nem sempre se reconhece no espelho.
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