Patti Smith cantando na Finlândia, 2007/creative commons Vislumbres e flashes de sua passagem por Paris compõem a ficção dos dois maiores trunfos da cantora . Giovana Proença “Por que alguém se sente compelido a escrever?”. Patti Smith recupera em Devoção o questionamento que ressoa desde as origens da escrita criativa. A cantora de Horses vai além e coloca a inspiração como incógnita. Se os poetas clássicos pediam à Musa por um sopro divino de estímulo a criação, em sua autoria, Patti refaz os percursos de seu trabalho artístico. Ele não poderia ser mais pitoresco. Com sua pequena bagagem, a lendária cantora do rock nos transporta para as ruas de Paris. Patti Smith traça as pegadas de Rimbaud, Camus, Patrick Modiano, Paul Valéry e Simone Weil. A poesia e a filosofia, tudo de mais elevado da cultura francesa, pairam suspensas pelas páginas do caderno da cantora. Em uma oportunidade única, assisti Patti Smith ao vivo. Em sua primeira passagem por São Paulo, em 2019, a cantora de setenta e três anos colocou uma verdadeira multidão em agito ao ritmo de hits como a política “People have the power” e “Because the night”. A presença magnética de Patti no palco reforça o título de lenda. Manifesta duas maestrias: captação e identificação. Foi aplaudida mesmo quando errou a entrada da música. Os dois maiores trunfos de Patti Smith estão em Devoção. Vislumbres e flashes de sua passagem por Paris compõem a ficção, que se delineia na segunda parte do livro, na frente de nossos olhos. Nos sentimos também autores da devoção de Smith. A lente apurada da escritora absorve tudo: músicas, filmes, ícones franceses; rearranjados no corpo do conto. Em sua estreia literária, Só garotos, Smith narra seus anos como artista aspirante em Nova York, ao lado do fotógrafo Robert Mapplethorpe. Seu talento para a autoficção, à alusão da transfiguração da biografia em literatura, já estava predestinado. Predestinações marcam a trajetória da cantora, que rumou para Nova York confiando no destino. O abstrato se tornou concreto, Smith se tornou expoente do punk com o disco Horses (1974). O memorialismo, íntimo e certeiro, delineia as nuances da emotiva visita da autora à casa de Albert Camus. O conto “Devoção”, ao centro do livro homônimo, é o resultado das peregrinações de Patti Smith. As sinestesias sintonizadas pela cantora são costuradas em uma belíssima composição. Eugenia, a personagem principal, tem sua devoção; a patinação do gelo, retirada de um programa assistido por Smith. Sozinha no mundo, dedica-se apenas a sua paixão, até conhecer Alexander, seu Ele. Trechos esparsos pelo volume adquirem sentido “E o rosto do amor é apenas o branco do inverno.” Influências deslizam pela prosa como as lâminas dos patins de Eugenia. A personagem espelha, em sua caracterização, Simone Weil, mística filósofa francesa defensora da humanidade. “Devoção”, vocábulo que cintila nomeando o conto, foi extraído de uma inscrição na lápide do poeta e filósofo Paul Valéry. No ato de olhar para os que vieram antes, e assentaram os tijolos que constroem os pilares da cultura, Patti se apropria de um sólido alicerce para os estandartes de sua arte. “Porque não podemos somente viver”, essa é a resposta que Patti Smith encontra na jornada de seus anseios artísticos. Em seu caso, vida e arte emergem em exercícios contínuos de memorialismo e transposição fictícia. Potente e magnética, a prosa de Smith tem a força de suas melodias em palco. Compositora das palavras, sua inventividade caminha pelos boulevards franceses, senta em cafés e escreve trechos pelas paisagens parisienses. Pela escrita, Patti nos apresenta sua devoção. Patti Smith Capa do livro da poeta/Reprodução Companhia das letras Devoção Tradução: Caetano W. Galindo Companhia das Letras/2019 144pp R$ 42,90/27,90 Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença