Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

Faz algumas semanas que terminei esse impactante ensaio sobre “aquilo que não deve ser dito” do britânico Joseph Conrad, e digo: eu deveria ter ficado sensibilizado, mas não fiquei. Não senti nada, absolutamente nada. E isso é ruim para um cristão (acho).

Primeiramente, o texto/autor não tem firulas. Lírico, como podemos ver nesse belíssimo trecho: “Seu rosto era como o céu de outono, carregado num momento, radiante no seguinte”. Filosófico e pessimista quando não consegue mais resistir: “Coisa engraçada é a vida – este misterioso arranjo de lógica implacável para um objetivo fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento de si próprio – que chega tarde demais -; uma colheita interminável de arrependimentos. Eu lutei com a morte. É a luta menos excitante que se possa imaginar. Acontece num ambiente cinzento, sem nada por baixo, nada por desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera doente de ceticismo morno, sem uma grande fé em nosso próprio direito, e ainda menos na de nosso adversário. Se essa é a forma de sabedoria definitiva, então a vida é um enigma maior do que alguns de nós pensávamos”.

Não sei o que está acontecendo comigo e com os jovens que tenho maior contato (os meus alunos, por exemplo), mas me parece que cada vez mais, eu eles, estamos perdendo uma das mais importantes características que todo ser humano deveria nutrir: a comiseração. Chorar pela miséria do outro. Pôr-se no lugar do outro. E caso não consigamos nada parecido com isso, que no mínimo sintamos alguma coisa (e se nada vier, o que fazer?).

Tudo começou com uma pergunta: O que foi que vocês sentiram com a tragédia no Rio de Janeiro? Resposta da turma: Nada, não foi comigo mesmo. Hummm, certo: O que vocês sentiram sobre o terremoto que assolou o Haiti e matou mais de 100 mil pessoas? Resposta: Nada. Deveria sentir alguma coisa?

Sim, deveríamos meu jovem. Não nos entreguemos ao descaso, à insensibilidade, como fez Kurtz na novela de Conrad e no filme Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Copolla.

Joseph Conrad nos conta a história de Marlow, um inglês que obteve trabalho junto de uma companhia de comércio belga como capitão de um barco a vapor num rio africano. Ele é experiente e vivido. Tem história.  Ele é contratado para transportar marfim rio abaixo; no entanto a sua tarefa mais urgente é devolver certo Kurtz, um famoso comerciante de marfim, à civilização.

Semelhante ao filme O Resgate do Soldado Ryan (1998), de Steven Spielberg, o narrador personagem fica procrastinando o momento de contar, de nos apresentar a essa figura tão misteriosa. E quando ele, ou algum tripulante do navio o faz, é sempre para engrandecê-lo. O que ele fez para merecer tantos elogios, tanto respeito? Por que trazê-lo de volta à civilização? E mais, mais: ele quer voltar? Voltar para quê e para quem? Por que alguém que teve o coração endurecido, machucado e depois esboroado por tantas escabrosidades vividas iria querer retornar? A vida na selva atrás de “marfim” é realmente tão diferente da “nossa”? Não queremos mais você, torpe rebotalho, diria a sociedade depois de cuspir mais de uma vez em sua face.

Tanto no livro quanto no filme, Kurtz parece ser o retrato perfeito da falência do humanitarismo, da sensibilidade, da comiseração. Ele é egoísta. Frio. E daí me vem uma questão: Assim como Kurtz, eu e meus alunos estamos nos tornado pessoas frias? E se isso já aconteceu, para onde iremos?

“O Horror! O Horror!”

Sr. Kurtz