A minha última leitura foi este livro de Jacinto F. Matias que conta a história de quatro amigos que se encontram às escondidas para jogar à sueca e para ouvir a BBC e a Rádio Moscovo, ambas proibidas. Este pequeno grupo está no entanto na ser espiado, enquanto discutem não só política, mas também gastronomia, mulheres e a vida. Nesta aldeia alentejana, vive-se com o medo associado ao cerco que se vai apertando pelos informadores e agentes da PIDE. 

Numa escalada de atrevimento, estes quatro amigos afixam um cartaz do Movimento de União Democrática na vila, divulgando a sua participação nas eleições (que non fundo acabaram por ser uma farsa da ditadura), pagam com uma proibição dolorosa, mas que irá desencadear a improvável resposta de uma criança ao estado de medo e de obediência a que o País foi subjugado ao longo de décadas. 

Neste livro, são também retratados episódios da vida quotidiana, relações familiares que, no meio da normalidade quotidiana, escondem o medo constante provocado pelo regime e pelo despoletar da guerra colonial. Um livro que, de uma forma leve, nos conduz a um tempo não muito distante em que a inocência da infância leva a melhor sobre o medo. Apesar de recheado de episódios divertidos, este é um livro que nos faz refletir nas mudanças que o 25 de Abril nos trouxe, mas sobretudo naquilo que continua tal e qual como era antes. 

Além de "O rapaz que venceu Salazar", Jacinto F. Matias escreveu também "A guerra do Salavisa". Jacinto nasceu em Moçambique, mas acabou por viajar e conhecer o mundo. Tinha 20 anos quando em 1974, a liberdade libertou o nosso povo.