Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Os olhos do garoto estavam fixos na grande caieira. Seu coração acompanhava o tilintar das faíscas que saltitavam da madeira incendiada daquele grande monumento construído com tamanha paciência e dedicação. A vontade que vinha à sua mente era a de ajudar o velho homem, descamisado e suado, a colocar aquelas ressequidas toras de madeira que alimentavam as bocas e os adobes, na fornalha, que parecia pedir, a todo instante, por mais lenha.

Algumas horas haviam passado desde o momento de sua chegada àquela reunião. Ele não veio sozinho: estava acompanhado do seu pai e irmão e uma prima da cidade, uma graciosa e sardenta garota que durante as férias do colégio passava o final de semana na casa dos parentes mais distantes.

Estava sentado ao lado do pai, quando uma senhora, já idosa, veio oferecer-lhe um copo de mungunzá temperado com cravo e canela. Como gostava muito de mungunzá com cravo e canela, pegou o copo que estava cheio até as bordas. Já seu pai rejeitou o aperitivo daquela noite, pois, segundo ele, não queria passar a madrugada na privada. O seu irmão e a sua prima também rejeitaram (como de costume); no entanto seus argumentos eram diferentes. Diziam eles que não gostam de mungunzá porque é “melenguento”; de milho assado, porque deixa os dentes sujos e pretos; e de canjica, porque, segundo eles, é a mesma coisa do mungunzá só que sem o milho. Isso é falta de surra, pensou o garoto. Como eu apanho quase todos os dias e tenho que comer de tudo, não tenho dessas frescuragens. Agora, já Pedrinho e Juliana, não! Eles comem só o que querem. Tenho certeza que isso irá influenciar bastante quando eles crescerem e virarem adultos…

Luis! Luis! Acorda. Está pensando o quê?

Hum?! Ah, nada. Estava olhando para Seu Netinho colocando a madeira para queimar. Pigarreou. Sabia que ele vai passar o dia todo trabalhando? E mais, ele só pode tomar banho na segunda.

Verdade?!

Não tenha dúvida disso. Se tomar banho é morte na certa. Pergunta a Painho que ele explica o porquê.

Painho era o nome do meu pai. Na verdade era Tunino, mas nós chamávamos de “Painho”, porque ai daquele que ousasse chamar o pai pelo nome que era um tapão certo na fuça. Filho que é filho tem que chamar o pai de Painho, dizia Tunino, desculpa: Painho.

Estávamos sentados em um grande tronco de madeira que seria futuramente queimado pelo Seu Netinho. Além de nós quatro estavam presentes Dona Sinhá, irmã do meu pai (não gosto muito dela, seu nariz era horrível demais. Além disso, ela tinha aquela nojenta mania de banhar-se apenas às sextas-feiras), a Senhora Dolores, a idosa à qual me referi (dela gosto apenas dos doces); mais alguns visitantes que se encontravam no interior da casa e dos quais não lembro e acredito não ser importante lembrar. Apesar de não gostar de boa parte deles, gostava muito de Seu Tomás. Esse senhor (cujo passado desconheço) possuía dois incontestáveis dons: contar estórias e não morrer. Seu Agostinho também não era lá muito bom de banho, mas suas lorotas me divertiam bastante. Dependendo da ocasião ele contava uma historieta engraçada ou de terror. Se estivéssemos cortando mandioca na casa de farinha que ficava bem em frente à casa da minha avó, ele contava uma lorota engraçada; mas se o “palco” (ele gostava de usar esse termo quando se referia ao lugar de contar estórias) fosse a noite de queimar adobe e ele estivesse inspirado (ele sempre estava inspirado), era terror na certa. Naquele dia mesmo Seu Tomás estava inspirado.

Do Lobisomem à Mula-sem-cabeça, da Caipora à Luzerna, Seu Tomás ia contando aquelas estórias que prendiam a atenção de todos. Alguns balançavam a cabeça como se confirmassem os causos; outros, incrédulos, sorriam maliciosamente como se caçoassem do velho contador. Ele percebendo que alguns não estavam dando a devida atenção, resolveu abrir a boca e “começar a pegar pesado”.

Já ouviram falar em São Cipriano e o Livro da Capa Preta?

Nesse instante meu pai disse para ele parar por ali, pois não queria que os filhos deles tivessem pesadelos durante a noite e precisassem ir à rezadeira novamente.

Não pai, eu juro que não tenho pesadelos.

Não diga a palavra “jurar”, ela é muito forte, menino! Juramento é coisa séria. E não quero saber mais de estória. Chega de lorota por hoje. Vamos embora. Amanhã é dia de missa.

Mas pai, que diabo é esse livro que tem uma capa preta e…

Menino anda logo! Fica com essa cabeça nas nuvens. Deixa de ser broco!

***

Irmãos e irmãs lembrem que nosso Deus tem problemas no ouvido. Por que essa cara de espanto? Vocês não sabiam que nosso Deus tem problemas de audição? Pois Ele tem. E sabe o que é preciso para que Ele ouça as nossas preces? Apenas que nos aproximemos Dele. Chegar pertinho de Deus, irmãos e irmãs. Não adiantam os berros e mais berros, pois ele não vai escutar. Deus só escuta e só escutará quando tomarmos essa decisão: aproximarmo-nos Dele. E como conseguir isso? Como chegar perto do nosso Senhor Deus? Orando. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para sempre seja Jesus louvado!

A missa havia chegado ao fim e os fiéis deixavam a Matriz em meio a burburinhos inquietantes. Alguns diziam que o padre era moderninho demais para o gosto deles, outros, ainda, falavam de sua juventude, dizendo que era novo demais para o ofício; tinha os maliciosos, que atacavam a moral do padre, insinuando que este ficava “de olho” nas moças de família que sentavam nos bancos mais próximos do altar. Alguns, mais exaltados, já pensavam em mandar cartas à Diocese para relatar os “absurdos” ditos pelo padre.

Não é por nada não, Padre, mas acho que o senhor deveria pensar e refletir sobre a sua postura frente a essas acusações…

Acusações? Desculpa, mas por enquanto não chegou nada em minhas mãos que se assemelhe a algum processo ou coisa parecida. Ou chegou, e eu ainda não sei?

Não… Mas… Não sei. O senhor é que sabe o que quer da vida. Apenas tome cuidado com o que fala.

Calma, Irmã Delfina. Deus há de olhar por mim. Vou-me indo. Até mais.

Espere Senhor. Hoje pela manhã deixaram um envelope enquanto arrumava seu quarto. Tome.

Quem deixou? Essa pessoa disse quem era, ou se veio a mando de alguém?

Não, apenas disse que era um mensageiro. Mas disse que o senhor iria reconhecer a letra.

Certo. Obrigado. Vou para os meus aposentos. Amanhã é dia de branco.

***

Colocou o envelope sobre a mesa e pegou um estilete e então cortou parcimoniosamente a parte superior horizontal do envelope. Suas mãos suavam e seus olhos ardiam e suas pernas tremiam convulsivamente. Há muito ele não sentia aquele temor que já lhe fora tão peculiar. As marcas e as gotas do suor marcaram o envelope, e então, por fim, ele começou a retirar folha de papel. Ela estava dobrada milimetricamente em quatro partes iguais. Na última dobradura ele solta o papel no chão como se tiveste visto o demônio ali, na sua frente, do seu lado, a conversar com ele no seu íntimo.

Não pode ser…!!!

***