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Set22

Maria do Rosário Pedreira

Na sexta-feira falei aqui de intimidades escusadas entre público e autor. Hoje falo de viajar com um autor sem de modo algum tocar a sua (e a nossa) intimidade. Falei aqui várias vezes do facto de o romance Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, ter sido o ponto de partida para uma viagem organizada pelo escritor aos cenários do livro: a cidade de Oswiécin, onde vivem os Gross do livro, e a que os alemães mais tarde chamarão Auschwitz; o bairro e o gueto judeus em Cracóvia; o museu Schindler (desse alemão que fabricava panelas e salvou mais de mil judeus da morte certa); e, por último, os campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, cujas imagens temos visto repetidamente em filmes e documentários, mas que ao vivo têm outro peso. Foi muito impressionante, claro, pois só quem não tenha um pingo de sensibilidade pode ficar indiferente a imagens como a das próteses, dos cabelos ou dos brinquedos arrancados aos judeus mandados directamente para a câmara de gás. Mas todos ganhámos com a visita, estou certa, e foi uma excelente ideia que, afinal, poderá ser repetida com base em outros livros. Eu, por exemplo, gostaria de ir à Indochina de O Amante, de Marguerite Duras (hoje Vietname); mas, se cada um de nós pensar um pouco, descobre de certeza um destino diferente a partir de um romance que leu. Querem dar ideias?