Atravessando o caos do Largo do Leal Senado, aproveito a companhia de uma colega do Ponto Final, Iris Lei, chinesa nascida e criada em Macau, para descobrir o que vende um senhor que vejo sempre sentado debaixo das arcadas, com uma mala aberta cheia de papéis vermelhos com caracteres dourados. Parecem-me os envelopes usados para o Lai Si, o dinheiro que se oferece no Ano Novo como forma de desejar fortuna e prosperidade, mas estou errada. O homem é, afinal, um adivinho, com credencial e tudo. Depois de me esclarecer, Iris pergunta-me se acredito nessa coisa de ler o futuro. Respondo-lhe que não tenho como acreditar que o facto de ter um sinal na cara, um determinado sulco na mão ou uma marca no pé possam definir o meu futuro, mas sei que os adivinhos não se limitam a esse jogo e digo-lhe que tenho a certeza, por outro lado, que não seremos apenas carne e osso e sangue, e que o que vemos e conseguimos experimentar no mundo não é a sua totalidade. Talvez esteja na altura de recuperar o livro que li antes de regressar a Macau, Disse-me um Adivinho, de Tiziano Terzani (Tinta da China), e deixar de brincar ao braço de ferro entre a razão e o indizível. Talvez esteja na altura de visitar um adivinho aqui em Macau.
Notas de viagem: em Macau, sem temer o futuro
Texto originalmente publicado em Cadeirão Voltaire

