Fotografia da minha autoria

«Uma obra única»

O caos desta pandemia exigiu que fossemos criativos. Quer para sabermos ocupar o tempo que ficou livre, quer para gerir os estados de espírito que foram gritando no nosso peito. Porque nos vimos privados de inúmeros aspetos do nosso quotidiano e porque a incerteza tomou conta da nossa voz. Apesar de ser uma realidade transversal à humanidade, não estamos todos no mesmo barco, pois fomos afetados de maneiras e intensidades diferentes. Porém, retirando essa camada, torna-se mais confortável se percebermos que não estamos sozinhos.

O Bruno Nogueira faz parte da minha casa há muito tempo. Primeiro, com participações no Levanta-te e Ri. E, posteriormente, através de projetos como Os Contemporâneos, Lado B, Último a Sair, Odisseia, Sara, Fugiram de Casa de Seus Pais, que marcaram o panorama cultural do nosso país. Não só pela versatilidade, mas também pelo conceito genial que sustenta cada uma das ideias. Mais recentemente, acolheu-nos no seu escritório, para uma série de diretos no instagram, que encetaram por ser uma espécie de desabafo - e de catarse -, uma vez que estava sem a companhia da mulher e a cuidar de três crianças. Sozinho. Com a premissa de ter que conversar com adultos, para evitar enlouquecer, o Bicho começou a mexer. E deu-nos boleia pelo caminho.

Numa altura em que o país estava em quarentena obrigatória, de segunda a sexta, a partir das 23h, no mesmo ponto de encontro, estivemos dois meses ligados. E, durante mais ou menos duas horas, podíamos esquecer o impacto deste presente angustiante e assistir a entretenimento puro. Sem filtros. Sem a pretensão de ser algo estruturalmente planeado. Assim, com mais ou menos intenção de ser um apoio para os portugueses, transformou-se numa tábua de salvação para a nossa neura. E para os dias desmotivantes - que também existiram do outro lado e ninguém procurou esconder. Não sei se é possível explicar o fenómeno. Talvez nem seja necessário. Mas creio que a verdade foi um dos grandes impulsionadores desta designação. Convidando outros artistas, de vários meios, o painel foi-se compondo. E as conversas extravasaram para vários tópicos - mais sérios, mais cómicos, mais disparatados, mais tudo o que o ritmo podia que fosse. E, subtilmente, perdíamos a noção de que permanecíamos distantes, ocultados por tecnologias, porque era como se estivéssemos sentados numa mesa redonda, a partilhar opiniões que apenas trocamos na segurança dos nossos amigos.

A imprevisibilidade e a ausência de falsos moralismos foram, também, parte do sucesso. Com uma atitude descontraída - comum a todos os intervenientes -, acomodamo-nos num lugar protegido. E, por isso, sinto que este programa fez mais pela nossa saúde mental do que aquilo que seremos capazes de definir. Mas temos consciência de que deixou uma marca profunda, ao ponto de chegarmos a uma rádio do Pólo Norte. E ao ponto de, a 15 de maio, estarmos a festejar o Natal. Sou muito franca, acredito que muito deste êxito e fidelização só foi possível porque partiu do Bruno Nogueira - que soube receber, dividir atenções, produzir e conduzir participações. E isso diz muito do caminho que tem traçado. Além do mais, não posso mesmo deixar de mencionar, fazendo-lhes uma vénia, o restante grupo. Nuno Markl, Inês Aires Pereira, Nuno Lopes, Salvador Martinha, João Manzarra, Bumba na Fofinha, Nelson Évora, Beatriz Gosta, Albano Jerónimo, Jéssica Athayde, João Quadros e Filipe Melo tornaram esta iniciativa ainda mais especial, porque a cumplicidade e a disponibilidade entre todos foi uma bela constante.

Tudo foi autêntico. Houve espaço para brilhar. Para tornar expressões épicas. Para falhar. Para ser - sem barreiras. E para angariar fundos para várias instituições. A liberdade criativa teve um novo palco, contemplando-nos a todos. E eu senti-me uma privilegiada por assistir àquele convívio. Por me sentir mais próxima de profissionais que admiro. Por ter celebrado Abril na sua companhia. Por ter ido dormir, tantas vezes, de coração mais sereno. Porque ali, num ecrã de diferentes formatos e através de uma caixa de comentários, estávamos todos pelo mesmo. O tempo pode avançar e levar-nos por outras rotas, mas este conteúdo ficará na memória daqueles que fizeram parte dele. Tanto pelo caráter reinventado, como por ter mantido o fator identidade, com que tanto nos identificamos. Provando que, quando as coisas são feitas com estima, existe uma ponte a unir as duas margens.

O confinamento mostrou-se um pouco mais suportável, porque tínhamos Como é que o Bicho Mexe para nos acalentar. Só lamento que tentem usá-lo como arma de arremesso. Porque não é justo. Muito menos respeitador. Acredito que chegará o dia em que todos compreenderão que aquilo que consomem artisticamente não os torna superiores aos demais. Simplesmente, há gostos distintos. E todos são válidos. Para mim, fez-me todo o sentido marcar presença em cada direto. Não só pela vertente do entretenimento, mas também por ter sido uma fonte de inspiração. Aliás, houve publicações a serem escritas durante aquelas duas horas; houve poemas que criei enquanto escutava o Filipe Melo ao piano. E esta consequência só pode ser maravilhosa, corroborando o quanto a Cultura é fundamental à nossa existência, visto que funciona como um mecanismo de defesa, quando tudo à nossa volta parece desconhecido.

Desliguei as luzes da minha árvore improvisada. E fi-lo já a acusar as saudades. Pelo momento da despedida. E por tudo o que aconteceu nestes últimos dois meses. Ri muito. Emocionei-me quase na mesma proporção. E cresci imenso nesta partilha virtual. Troquei o receio pelo humor. O limbo por aquele pedaço de paz que nos faz sussurrar que «vai ficar tudo bem». Num sentido de comunidade orgânico, ergui o meu copo de vinho imaginário e brindei a esta montanha russa de sensações, diálogos e improvisos. Talvez um dia seja capaz de reunir as palavras certas para explicar e homenagear o simbolismo deste Bicho irrequieto e criativo. Até lá, obrigada. Por tudo. A todos. Mas, principalmente, ao Corpo Dormente, pela genialidade, pela generosidade e por ter sido um ponto de luz nas nossas casas. E nas nossas vidas. Até breve ♥