Antologia de poemas de Primo Levi é publicada no Brasil e oferece outra face da produção do escritor italiano
Literatura italiana, Poesia, Tradução, Primo Levi, Análise literária
Imagem: divulgação No centenário do escritor italiano (1919 -1987), a Editora Todavia publicou antologia de poemas de Levi, traduzidos e selecionados por Maurício Santana Dias, em edição bilíngue, com o título de Mil sóis. Giovana Proença Se Walter Benjamin considerava que os homens emudecidos que voltavam da guerra mudariam o ato de narrar, vinculado pelo pensador à experiência, em oposição, a prosa de Primo Levi – sobrevivente do Campo de Concentração de Auschwitz – associada essencialmente à sua vivência e ao memorialismo, reforça a importância do relato do horror ou do indizível. Oferecendo uma outra face da produção literária de Levi, a editora Todavia publicou em 2019, ocasião do centenário do escritor italiano, uma antologia de poemas traduzidos e selecionados por Maurício Santana Dias, em edição bilíngue, com o título de Mil sóis. Primo Levi definiu sua poesia, heterogênea e destoante (reunida pela primeira vez em livro na década de 1970), como bissexta. Os diferentes aspectos formais revelam a constante experimentação e reestruturação na poética do autor, que exprime as questões de um ‘eu’ em contato com o mundo no mais alto teor lírico, sem deixar, contudo, de usar elementos prosaicos em construções próximas à narração. A edição bilíngue de Mil sóis permite maior análise da tradução de Maurício Santana Dias, que tenta manter aspectos sonoros e semânticos, valendo-se da proximidade entre o português e o italiano. Poucos jogos de palavras são perdidos como em “A Fuga”, no qual o tradutor, em nota, explica as dificuldades de transpor os sentidos criados por Levi por meio da elevada articulação da linguagem em sua poesia. Os sóis do escritor são recorrentes figuras e figurações nos poemas da antologia, aparecendo em diversos contextos e arranjos. O tom obscuro de perdição do homem e da solidão frente ao horror dos infortúnios e aos dilemas, em concomitância com os conflitos mundiais, geram inquietações externas e internas, que contrastam com a imagem solar e de esperança, em busca por claridade e esclarecimento, refletindo o Chiaroscuro, técnica da pintura renascentista que consiste no contraste entre luz e sombra. A poesia de Primo Levi exposta em Mil sóis é capaz de nomear e significar o inominável, e encaminha-se como tentativa de aproximação e entendimento do homem, “um instrumento portentoso de contato humano”, aproximando-se do antropólogo Claude Lévi-Strauss, com quem divide um nome e a visão da linguagem como instrumento de desvendamento da condição humana. O movimento da procura por uma luz na luta contra a desesperança, reflete em Primo Levi no entendimento da natureza do homem, atingindo grau máximo e condensando-se em versos “E um homem? Não é triste um homem?/Se vive há muito em solidão,/Se acha que o tempo terminou,/Um homem também é coisa triste.”, do poema “Segunda-Feira (Lunedì)”, grafado na contracapa do livro, em oposição à figura solar que preenche a capa do volume. A poesia de Mil sóis expõe a concomitância da obra literária inserida em seu tempo histórico e que supera limites puramente ideológicos pelo destaque de seus recursos literários. Negando o sentido existencialista de Sartre, diz-se que na poética do livro a experiência precede a essência e, a luminosidade que irradia em meio ao breu da condição humana, cegará o leitor em seu desvendamento. MIL SÓIS Maurício Santana Dias. (org.) Todavia • 160 pp Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença
Texto originalmente publicado em Revista Fina