Vêm chegando as férias e com elas o direito às leituras renunciadas ao longo do semestre. Eu mais ou menos sei o que quero ler nesses momentos, não o livro exato, mas o tipo de leitura: em geral, a) os grandes clássicos universais, b) os autores vivos, mas também – como não? – c) as releituras.
Já me aconteceu várias vezes de voltar, por exemplo, ao delicioso Don Quijote de la Mancha, não ao livro todo, mas a trechos inesquecíveis, para os quais sinto necessidade de retornar, como quem volta a uma velha cidade conhecida. Com sua concepção de literatura como entretenimento[1] e seu “escribo como hablo”, Cervantes é um autor agradabilíssimo. Sua sintaxe flui, provocando risos e sorrisos: solta, colorida. E vale a pena, mesmo para alguém tão inábil com línguas estrangeiras como eu, a aventura de ler ao menos alguns trechos em espanhol. A criatura de Cervantes – El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha – inaugura o conflito central do herói das narrativas modernas: o descompasso entre o ser e o meio, a cisão entre o desejo e a realidade, conflito que é o de Werther (Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe), o de Julien Sorel (O vermelho e o negro, de Stendhal), o de Ema Bovary (Madame Bovary, de Flaubert) e o de Raskólnikov (Crime e castigo, de Dostoiévksi), para ficar em alguns exemplos expressivos.
Li o Quixote aos vinte e tantos anos, com indicação e orientação da grande professa Maria Augusta da Costa Vieira, autora de um trabalho maravilhoso sobre a obra de Cervantes[2], o qual ampliou e deu significado ainda mais especial à minha leitura. Li a tradução de Sérgio Molina, na belíssima edição bilíngue da Editora 34, com ilustrações de Gustave Doré e excelente apresentação da própria Maria Augusta Vieira.

Volto ao livro quando posso, quando quero. E confesso que às vezes me pego simplesmente pensando nele, no vigor de sua expressão, em sua grandeza, em seu mistério extraordinário de poder ser conhecido mesmo daqueles que jamais folhearam suas páginas – porque Dom Quixote é mais que um livro, é um universo, do qual mesmo não-leitores participam.
Convivo com o fidalgo de La Mancha por meio de outras personagens, reencontro-o no singelo Policarpo Quaresma (Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto), no divertidíssimo Geraldo Viramundo (O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino) e entre dezenas de sonhadores incompreendidos, soterrados pelo pragmatismo e atropelados pela anomia moderna.
Crime e castigo é outro livro ao qual sempre retorno. Li-o três vezes. A primeira leitura foi ardorosa e provavelmente bastante ingênua, aos dezessete anos. Uma tradução indireta, do escritor Marques Rebelo, já que na época não existia esse grande volume de traduções diretas do russo. Daquela primeira leitura, as recordações são vivas. Lembro-me até dos lugares onde me sentei para ler: praças, terminais de ônibus, a mesa da cozinha de casa. Uma experiência fulminante. Riquíssimo foi o reencontro, mais de dez anos depois, pela tradução direta do russo, realizada pelo grande Paulo Bezerra. Ao contrário do riso, que salpica o trágico percurso de Quixote, a companhia de Raskólnikov provoca desassossego, desamparo, tristeza, paixões desesperadas. E mesmo assim é uma grande companhia, cujos ensinamentos calam profundamente. Pela técnica de Dostoiévski, que prima em dar voz a várias personagens, oferecendo assim diversos ângulos sobre os fatos do enredo, fica difícil classificar como secundárias as figuras de Razumíkhin, Sônia ou Svidrigáilov, pois têm um sentido profundo no enredo e oferecem, tanto quanto o herói, possibilidades de leitura da realidade. Por isso Raskólnikov é também o que dizem e pensam sobre ele as outras personagens da narrativa. A companhia então, nesse caso, se alarga: é uma galeria de pessoas que passam a fazer parte de sua vida. Sempre que me perguntam qual o livro de que mais gosto, respondo sem titubear: Crime e castigo. Não quer dizer que seja a pura verdade, mas quer dizer alguma coisa.

Não me satisfaço só com releituras. Comecei o ciclo de leituras destas férias com Bartleby, o escrivão, de Herman Melville. Eu esperava por esse encontro há alguns anos. Para mim o século XIX sempre foi russo e francês e obviamente, por razões profissionais, luso-brasileiro, e, à exceção de Poe (aquele maluco), sempre tive preferência pelos americanos do século XX, como Fitzgerald, Fante e Philip Roth. Sabia obviamente da excelência narrativa de Melville, mas adiava o encontro, como adio muitos outros: meu encontro com Proust, por exemplo.
Mas Bartleby, essa criatura que eu sabia filiar-se à galeria dos “homens sem importância” [3], me atraía e me pedia urgentemente sua leitura. Ganhei o livro num amigo-secreto com os alunos do primeiro ano (valeu, Bruno!). Mais cinco páginas e eu concluo a leitura. Mas já não há dúvida: Bartleby é alguém que vou sempre querer reencontrar: em releituras, rememorações, ou simplesmente em devaneios. O tipo estranho que se recusa ao que lhe pedem ou ordenam com seu imutável “Acho melhor não” já faz parte de mim. E o narrador de Melville, com suas indagações incisivas, certeiras, com seu desajeitado senso de humanidade, sim, é extraordinário!
Adorei começar esse ciclo com Bartleby e acho que vou repetir a dose: ou seja, provavelmente tenha de novo um primeiro encontro com um clássico do século XIX. Quem sabe Tolstói ou mesmo Dostoiévski?

Quando existe algum tempo para o ócio, bom mesmo é deixar que os livros venham acidentalmente, ao sabor do acaso.
E você, meu caro, o que está lendo no momento? Registre aqui nos comentários suas leituras de férias.
[1] “O entretenimento, Cervantes dá a entender claramente, é a função primordial da prosa narrativa.” E.C Riley, em Teoria de la novela en Cervantes – Versión de Carlos Sahagún. Madrid, Taurus, 1981. p. 137. Vale a pena lembrar que o tipo de entretenimento de Cervantes está longe de ser uma diversão sem consequências éticas ou existenciais: sua literatura é um docere cum delectare (educar com prazer) dos antigos.
[2] VIEIRA, Maria Augusta da Costa. O dito pelo não-dito: paradoxos de Dom Quixote. São Paulo, EDUSP – FAPESP, 1998.
[3] Em sua obra magistral e singular Os arquétipos literários (Ateliê Editorial), o estudioso russo E. M. Meletínski apresenta, entre outras, a personagem arquetípica do “homem sem importância”, criada por Gógol em novelas como O capote e O diário de um louco.