Akakiy Akakievitch é um burocrata típico. Copista num departamento oficial qualquer, nunca cometeu um erro em vida, sente-se feliz com suas letras, a ponto de esquecer todo o resto. Seu capote (eu prefiro capa, ou sobretudo) está para lá de puído, mas ele não liga. É motivo de piada entre os colegas de trabalho, por seu jeito ausente e distraído, de suas roupas maltrapilhas, de seu jeito de falar através de adjetivos e advérbios. Sem amigos, sua vida se resume ao departamento e ao trabalho de copista. Leva-o para casa, delicia-se com ele.
Até que, um dia, o frio de São Petesburgo o leva a perceber que seu capote tornou-se uma fina gaze. Com dor no coração pela antecipação dos gastos a serem feitos, leva-o ao alfaiate, esperando que alguns remendos sejam suficientes. Mas nem mesmo um alfaiate caolho e bebum aceitaria remendar aquele arremedo de capa. A decisão é difícil, o dinheiro é curto, mas o alfaiate faz questão, e Akakiy finalmente consente. Um novo sobretudo (capote, capa) deve ser feito.
A ideia que tão relutantemente aceitou logo transforma os dias de Akakiy. Afim de economizar, passa seus dias de forma ainda mais frugal, usando seu tempo livre para escolher o tecido, o modelo, o forro, tudo de forma a caber no orçamento e fazer uma bela peça de roupa. Assim se passam meses, até o valor combinado ser arrecadado, e Akakiy receber seu belo sobretudo novo. Sua vida muda brutalmente neste dia.
Algo a que me acostumei ao ler autores russos, a ênfase em “O capote” está nos detalhes. O que parece uma história banal, simplória e de um fato corriqueiro é, na verdade, um retrato detalhado da vida em sociedade, com uma carga emocional e psicológica pesada. O relacionamento de Akakiy com seu casaco novo pode ser comparada com a relação pai e filho. o Pai faz planos, observa cada detalhe do novo quarto, cuida com todo o carinho e atenção, muda seu círculo de amigos, apara as arestas de sua personalidade, prevê a sua criatura um futuro brilhante, orgulha-se de cada pequeno detalhe desta.
É um elo cuja ruptura é sempre traumática. E assim, Gogol nos faz emocionar com o relacionamento de um homem com seu casaco, atentando-nos para o detalhe, ao quanto Akakiy se dedica, se doa a ele. É também assim que Gogol faz uma crítica severa ao instinto humano de pré-julgar. A reação de seus colegas, que faziam dele motivo de chacota, muda radicalmente quando o novo casaco entra em cena. O próprio Akakiy não se julgava grande coisa antes desta mesma indumentária.
Um conto para ser lido e relido sob diversos ângulos, como só um mestre russo consegue fazer. Para conferir outras opiniões sobre o conto, visite o nosso Clube de Leitura
About Clarisse
Uma menina com histórias pra contar...