06

Out10

Maria do Rosário Pedreira

No tempo em que era professora, infelizmente não havia muitos colegas com os quais pudesse falar de livros. E o que mais me assustava era que, de vez em quando, apareciam na escola promotores de editoras (não necessariamente escolares), abriam o seu estendal na Sala de Professores e muitos dos docentes não só não compravam nada como nem sequer iam lá espreitar (mas perdiam imenso tempo a ver pulseiras, fios e anéis de ouro em bolsas de veludo). Tenho-me perguntado ao longo destes anos como será possível a quem não lê e não gosta de ler fazer aquilo a que hoje se chama «motivar os jovens para a leitura». Mas também não estou certa de que o gosto pela leitura seja transmissível – penso que a descoberta se faz quando um leitor encontra um livro (e nem precisa de ser bom) que, naquele exacto momento, faz um clique e estala qualquer coisa dentro dele; e isso é um milagre a dois, não inclui mais ninguém. Em todo o caso, é sempre preciso que alguém dê livros às crianças, sobretudo às que não têm livros em casa, para esse clique acontecer, e o professor pode, de facto, ser essa pessoa. Por isso, é bom que leia e goste de ler para escolher melhor o que entrega.