Todo o céu é um coração
aberto em agro tormento.
Gabriela Mistral

Poucos autores tiveram a sua obra tão fragmentada quanto Roberto Bolaño. O chileno deixou arquivos abarrotados de textos que foram ganhando o mundo somente após a sua morte, em 2003. Parte desse espólio é composto de obras monumentais, como 2666, e o restante se torna muito mais interessante como objeto de estudo que leitura, propriamente dita.

Sepulcros de caubóis, por exemplo, entra nessa última prateleira. Esse fenômeno, de desencavar textos perdidos, é um ritual quase que obrigatório para todo grande autor. Macedônio Fernández e seu Museu do romance da eterna é, quem sabe, o mais célebre caso latino-americano ao lado de Bolaño. Em termos gerais, Kafka, que teve todas as suas novelas, contos e romances (inacabados) publicados depois que já havia deixado esse plano, é o pai de todos os escritores póstumos.

Em Sepulcros de caubóis o que temos não é um livro deixado para trás, como Gaucho insofrível — que tem um dos melhores relatos de Bolaño, O policial dos ratos — (publicado às vésperas da sua última internação e como um ato derradeiro e desesperado) ou O espírito da ficção científica, mas esboços e aproximações de temas e personagens que integram o universo bolañesco.

Questões centrais do seu corpus estão presentes nos três fragmentos que compõem o livro: o golpe de Pinochet; o escritor como homem do não-lugar; o não-pertencimento; a escrita como um ato revolucionário e radical. E, além disso, vemos rostos comuns aos leitores mais atentos. Arturo Belano, que mais tarde será personagem de Os detetives selvagens, aparece em Pátria, uma novela composta de pequenas polaroides narrativas que registram o ambiente chileno pós-Allende e que traz também Juan Cherniakovski, que está também Estrela distante.

Pistas
Por sinal, Pátria, escrito nos anos 1990 e o mais interessante dos três textos, é um estudo sobre a literatura de Bolaño e também sobre o próprio estado do Chile após o seu 11 de setembro. Esse é um daqueles escritos que são um pouco difíceis de classificar. O seu caráter fragmentário dá uma primeira impressão de uma formação modernista: contos avulsos que convergem para uma narrativa maior, novelística ou de romance. Considerando que, em geral, a literatura de Bolaño é densa, quase monolítica, Pátria destoa do modus operandi convencional, oferecendo pistas verdadeiramente instigantes do processo criativo do autor.

Ao mesmo tempo, funciona bem como uma peça fechada em si mesma, como se estivesse independente de qualquer outro contexto. Rigoberto Belano, o alter ego, é um narrador habilidoso, que passeia entre a política diariamente e também pela cultura da sua época, com ecos inclusive de Hitchcock e Sartre.

Pátria é, em certo sentido, um texto acessível muito pelo cenário dos nossos tempos. Se quando da sua escrita, o Chile vivia à sombra do totalitarismo recém-derrubado, para o leitor brasileiro é possível encontrar um diálogo forte com os desejos antidemocráticos que tomaram o país de assalto e cujo ápice sombrio foram as invasões de 8 de janeiro de 2023. A literatura, sob o olhar de Bolaño, não é nada menos que um ato contrarrevolucionário, uma arma poderosa de subversão dos valores supremacistas e totalitários.

Falei de um menino e de um sacrifício. Sacrifício no sentido comercial da palavra. Acho que agora devo acrescentar algumas coisas. A rede de tráfico de crianças para transplantes de órgãos se estendeu pela América Latina mais ou menos na mesma época em que Juan Cherniakovski ou Víctor Díaz vagava pelos cenários bolivarianos com os olhos injetados de sangue. A imagem não é minha, como já devem ter percebido, mas de um jornal sensacionalista. Acho que a história transcorre como num desses teatros erroneamente chamados de vanguarda: numa noite artificial, Víctor Díaz, mais um em meio a uma legião de machos latino-americanos com calafrios e sonolentos, chega por acaso ao olho do matadouro.

Belano, o narrador, possui um sentimento imenso de inadequação, sobretudo sob a égide de Pinochet. Esse é um espelhamento com Bolaño, que voltou ao seu país após uma temporada no exterior e encontrou o território chileno às vésperas de um golpe de Estado que o arrasaria por muitas décadas. Pátria é, sem dúvida, um presente ao leitor fiel do escritor. Não só pelo espelhamento com Bolaño, mas porque já encontramos temas, leitmotiv e personagens que habitam obras como O Terceiro Reich e A literatura nazi na América-Latina.

Continente em chamas
Em Sepulcros de caubóis, temos mais uma vez as raízes de Roberto Bolaño. Se na seção anterior nos deparamos com um inventário político, aqui a investida é muito mais sentimental. Os textos que formam essa novela — e, de novo, encontramos um sério problema com a classificação do que temos em mãos — são tão fragmentários e intercambiáveis quanto os de Pátria, o que muda é que Arturo Belano, em viagem ao México e ao Panamá, encara uma América Latina em chamas.

A prosa vertiginosa de Bolaño está presente aqui, mas ainda como um esboço de algo maior. O verme, um dos capítulos dessa seção, apareceria mais tarde —remodelado — em Chamadas telefônicas, mais um conjunto de contos do escritor. Novamente, o leitor atento e fiel se depara com os outtakes de um prosador prolífico e que não deixa nada para trás. Em alguma medida, Sepulcros de caubóis, também datado da década de 1990, reflete muito mais o espírito de sua feitura que o seu retrato pretendido.

A passagem de maior impacto é, com certa certeza, o regresso de Belano e seus asseclas ao Chile, construindo um diálogo muito preciso com uma obra pouco lembrada de Cortázar, Os prêmios, reeditado por aqui recentemente, entretanto, esquecido mesmo assim.

Meu companheiro de cabine se chamava Johnny Paredes seus pais o estavam mandando para o Chile para que se afastasse das más companhias de Caracas. Falava como os venezuelanos, parecia venezuelano, mas era um chileno que desde os dois ou três anos de idade vivia na Venezuela, onde seus pais tinham negócios. Gabava-se de ter dinheiro. Pretendia morar na casa de uma tia em Viña del Mar e tinha o propósito de estudar valentemente e de não fazer amizades masculinas. A cabine, de quatro lugares, só era compartilhada por ele e por mim, e desde o primeiro encontro ele deixou claro que não era homossexual e que se eu tivesse alguma ideia estranha a esse respeito, era melhor não me iludir. Tínhamos a mesma idade, mas eu parecia mais velho por causa de meu cabelo comprido, meu bigode e minha barba. Aquela era a primeira vez que Johnny Paredes viajava sozinho, e dava para notar. Também era minha primeira vez, mas eu disfarçava melhor, pois minha viagem tinha começado dois meses antes.

Em simultâneo, Bolaño, um conhecido inimigo de Octavio Paz e verdadeiro rebelde literário, fará acenos a Pablo Neruda, Gabriela Mistral e Nicanor Parra, selando uma espécie de paz metafórica. Sepulcros de caubóis, assim como Pátria, são textos bem resolvidos, ainda que em processo de acabamento.

Febre criativa
O último texto da tríade de Sepulcros de caubóis é Comédia de horror da França, um dos seus relatos mais brilhantes. Escrito entre 2002 e 2003, parece ter sido fruto de uma derradeira febre criativa e se mostra tão vertiginoso quanto seus irmãos, ainda que seja um esboço que necessita de um acabamento final. Levando em conta que o volume é mesmo uma reunião de retalhos, Comédia de horror da França não é de todo mal e mostra como Bolaño foi um artista inquieto até os seus últimos dias.

O relato é também o mais imagético e poético dos três, quem sabe por lidar, mais uma vez, com a biografia do próprio autor, sempre mascarada, claro. O narrador, que começa testemunhando um eclipse, logo se vê aliciado pelo Grupo Surrealista Clandestino — um diálogo direto com o movimento infrarrealista, do qual Bolaño fez parte e foi uma das principais lideranças — e que convoca os novos membros por meio de chamadas telefônicas em orelhões.

Assim como Pátria, Comédia de horror da França é uma sátira política, um pouco menos refinada do que Monsieur Pain, mas igualmente inteligente e instigante.

A única coisa certa é que, em vez de virar à direita, em direção ao mar, peguei o caminho da esquerda, através de uma avenida bastante ampla, cujo nome esqueci, e que subia com uma inclinação de início imperceptível. Algum tempo depois, as palmeiras que havia de cada lado da avenida desapareceram para dar lugar aos pinheiros, grandes pinheiros reais que erguiam suas copas no meio da noite.

Como se vê, a literatura de Roberto Bolaño não é somente uma obra de engajamento social e político, ela reflete a mente pulsante de um homem que interpretou como poucos o mundo. A sua capacidade de ler contextos e cenários, transformando a loucura da realidade em arte, é o que faz dele um nome relevante e que ainda permite descobertas e redescobertas. Sepulcros de caubóis está longe de ser o melhor livro de Bolaño — e nem se pretende como tal —, entrementes, é, nas palavras de Umberto Eco, uma obra aberta, que merece ser lida e discutida, que não se perde na mitologia do seu criador e nem na megalomania de um fã-clube sedento pelo que Bolaño não publicou em vida.