Por José Reinaldo do Nascimento Filho
Dedico este texto às “popozudas” e “piriguetes”.
Pretendo com esse texto colocar minha postura diante de algo que, para mim, marcou a história da mulher na metade do século XX: a “inércia” feminina frente à construção e transformação da sua imagem em objeto “recreativo” e representativo de sexo e sensualidade. Pode parecer exagero, mas percebo, por parte das mulheres, certa “inocência” e conformidade frente a isto; principalmente, e com maior força, no nosso Brasil.
Na Terra de Santa Cruz, onde não há pecado ao sul do Equador, nossas “Marias” absorveram e interpretaram, da pior maneira, o ideal de liberdade e igualdade frente aos gêneros. Essas pobres criaturas, como dizia Schopenhauer (1788-1860), de “cabelos longos e inteligência curta”, acreditam estar exercendo sua liberdade reprimida e de direito, mostrando seus vultosos corpos esculturais sem nenhum pudor e receio. Enquanto isso os homens, de camarote, deliciam-se e “gozam”, ao tempo que gritam:
“Só as cachorras; As preparadas; As popozudas; O baile todo; Vem prá cá; Que eu sou tigrão; Vou te dar muita pressão; Quando vejo um popozão; Rebolando no salão; Não consigo respirar; Fico louco prá pegar; Melhor tu se preparar; Vai a onde tu fugir; Que o tigrão vai te engolir; Se tu corre por aqui; Eu te pego logo ali… (o verso é repetido 44 vezes)
A imagem de fragilidade e servilismo sempre esteve ligada à mulher na História. Marcada pela violência e repressão cultural, cada período histórico contribuiu para fomentar essa imagem – tão criticada nos dias de hoje. De instituições religiosas a pensadores solitários, muitos foram aqueles que se posicionaram frente à figura feminina. Aristóteles (384-322 a.c), certa vez afirmou: “a fêmea é fêmea em virtude de certas faltas de qualidade”; enquanto que para Platão (428-347 a.c), “os homens covardes que foram injustos durante sua vida, serão provavelmente transformados em mulheres quando reencarnarem”. O medievo São Tomas de Aquino (1225-1274), doutor da Igreja Católica Apostólica Romana, resume, em poucas linhas, a participação político-social da mulher, dizendo: “um ser acidental e falho, e que seu destino é o de viver sob a tutela de um homem, por natureza é inferior em força e dignidade”. Já na modernidade, apesar dos seus avanços culturais, sociais e econômicos, Nietzsche (1844-1900) afirmou: “o homem deve ser educado para a guerra a mulher para a recreação do guerreiro”. Apesar deste posicionamento, foi nesse mesmo período que o papel feminino começou a mudar.
Até o início do século XX, cabia inquestionavelmente à mulher ocupações relacionadas, direta ou indiretamente, à maternidade, o que implicava o estafante trabalho de cuidar da casa. Ao homem, cabia prover a alimentação da família com seu trabalho, e ir todo o ano à guerra, na qual perdia a vida, ou da qual retornava mutilado. Com o advento da revolução industrialização esses personagens sociais foram sendo, gradativamente, modificados e reinventados: a mulher agora trabalhava nas fábricas, e não somente com os pratos. O cotidiano agora ganhava níveis complexos; fazendo com que as mulheres precisassem escolher entre a vida pessoal ou industrial.
Nesse instante você pode estar se perguntando: sim, e quanto ao Brasil?
Do colonialismo à república, a participação feminina restringia-se ao ambiente familiar e doméstico; a assistência moral e familiar; ao gozo masculino e manutenção da sua linhagem. Esta repressão consolidava-se na subserviência com a qual tinham de tratar os homens, sob a alegação que estes lhe provinham o sustento; a mulher, por sua vez, completava seu papel entre as quatro paredes.
Apesar dessa sociedade de caráter colonial, do catolicismo como religião oficial, onde persistia um sólido Status Quo; alimentada pelo ócio, a boemia, a imoralidade, e a crueldade masculina sobre a mulher, não foi possível impedir que mudanças surgissem – embora a duras penas. Nessa conjuntura se realizou, em 1922, a Semana de Arte Moderna, que tinha como objetivo a mobilização da opinião pública e o incentivo do progresso no campo cultural, em favor de uma mudança nos hábitos e valores sociais. A Semana serviu, dentre outras coisas, para maior projeção da figura feminina – mesmo que algumas já contassem com o respeito do público, como era o caso de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, sem que, no entanto, fosse reivindicado objetivamente um novo status político para a mulher.
Foi em de 1930 – considerados por muitos estudiosos como o verdadeiro início da revolução industrial – que o papel da mulher começou a ser remodelado drasticamente. Após adquirir uma maior participação no panorama econômico, a mulher agora questionava sua atuação nas decisões políticas. Esta punha em dúvida a supremacia masculina em relação ao mando administrativo da nação; assim, não bastava apenas trabalhar nas fábricas, elas queriam escolher seus líderes: Homem ou Mulher.
Nesse período surgiu o movimento sufragista feminino (pelo direito ao voto), tendo como precursora Leolinda de Figueiredo Daltro. Suas manifestações tiveram resultado no governo de Getúlio Vargas, quando todas as restrições às mulheres foram suprimidas, através do Decreto nº. 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, no qual foi instituído o Código Eleitoral Brasileiro; assim, o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo, tinha direito ao voto. Tudo, ou quase tudo, estava consumado: do econômico ao político; do social ao cultural. A mulher adentrava com todas as forças nas esferas representativas da sociedade.
As manifestações feministas prosseguiram com energia ao longo de todo o restante do século XX. Nesse período o movimento de caráter social e cultural, de espírito mais libertário e literário, de cultura underground, contra valores tradicionais cristãos, familiares; contra o “sistema”, a guerra, e a favor da paz e do sexo, marcou a vida de inúmeras pessoas. O Maio de 68 surgiu como símbolo maior dessa luta contra a persistência autoritária machista. Tempos em que o singular deu lugar ao plural; quando não se cogitava uma revolução, mas revoluções. Palavra esta que enchia o coração e as mentes de milhões de jovens pelo mundo afora. Dentre tantas manifestações, nenhuma (não para mim) ocasionou tamanha transformação – física, imagética e psicológica – quanto a revolução sexual. Apresentada para o jovem – para nós em especial, a jovem brasileira, que engole e transforma em “cotidiano” tudo que vem do Norte – em formas coloridas e disformes, sonoras e gasosas; iludida por propagandas que alimentavam a liberdade (ou seria libertinagem?); a revolução sexual questionava valores e obrigações – antes sustentáculos da família.
No entanto vale ressaltar, mais do que um movimento de “libertinação”, essa revolução almejava a igualdade de direito entre os gêneros em todos os níveis da sociedade. Na busca por seu lugar no mundo, a mulher queria deixar de ser considerada um simples “objeto de cama e mesa”, para ser tratada com igualdade.
Apesar dos claros avanços e maior participação nas esferas políticas, percebo que, após tantos séculos de luta, a mulher entregou-se facilmente àquilo tão almejado pelo homem: economizar com os bordéis, já que estes ganharam as ruas. Mesmo que não seja deliberadamente, as pobres criaturas entregam-se aos homens acreditando estar exercendo seu direito de ir e vir – ou sentar.
Como foi apresentada no início do texto, a figura feminina foi considerada, em vários períodos históricos, instrumento pecaminoso e por isso deveria ser coberto, para não incitar o desejo carnal no homem. A respeito disto salientava Michel de Montaigne (1533-1592), quando dizia: “proibir algo é despertar o desejo”. No passado o nu era coberto, no presente o nu é exposto. Não tenho dúvida que hoje os homens gozam em tempos constantes por apreciar, em revistas e músicas, programas à la Big Brother ou de auditórios, mulheres apresentando seus saborosos corpos, e rabos ao léu.
A pouca vergonha está estampada em todos os lugares e horários. Lembro do tempo (que homem velho) onde era necessário ficar à espera da madrugada para se ter contato com tamanha nudez. Hoje? Faça o teste e você verá como o nu feminino foi “coisificado”, e consecutivamente transformado em mercadoria. E o pior, elas gostam e dançam conforme a música masculina, acreditando piamente estarem exercendo ali sua liberdade reprimida. Pura especulação (ou brincadeira), mas imagino que isso teve maior força no Brasil por este ser um país subdesenvolvido e tropical. Aqui os mercados informais são comuns, ganhando as ruas e feiras. Para ilustrar isto lembro como se fosse ontem, ao folhear um jornal, e em meio a notícias de roubos, assaltos, estupros, esquartejamentos e violência policial, uma que faria enfurecer – se essas do “além” ou do “aquém” pudessem ler – as feministas das passeatas e barricadas de 68: “Mulher Moranguinho vai ficar peladinha”. Título de capa. Já na última página, outra notícia para reforçar a idéia de que a mulher não passa de fruta para alimentar os famintos e felizes homens: “A Mulher Melão será um dos destaques da Parada Gay”. Não posso esquecer que dias antes era a vez da “Mulher Melancia” que mereceu um número especial da Playboy. Assim anda a revolução sexual de 1968.
Não haverá desenvolvimento político, social e econômico com justiça, se não houver igualdade de oportunidades para homens e mulheres. Isso é fato. Tantas “Marias”, que lutaram para vencer as diferenças, hoje lutam, apenas, pelo discurso da “igualdade dos pelados”. Parece exagero, mas vejo como maior avanço da mulher no fim do século XX, após o direito ao voto e trabalhar ao lado de homens poderoso, apresentar, feliz e saltitante, suas formosas nádegas e volumosos seio siliconados, ao som das músicas carnavalescas e “pancadões”.
Se tudo isso que apresentei fosse mentira nosso país não seria conhecido apenas pelo futebol, carnaval e prostituição. Nossos governantes sorriem ao saber que nossa identidade nacional está resumida a esses três pilares.
Exemplos não faltam na história de preconceitos contra o gênero feminino; alguns continuam a resistir ao tempo e precisam ser eliminados do seio da sociedade. Embora ainda fique me perguntando se alguns destes preconceitos não sejam aceitos tranquilamente, e sem nenhuma revolta, por algumas mulheres. Simplificar a mulher pelo corpo é um destas persistências, e para mim o que melhor lustra isto são as músicas, que cada vez mais trazem em suas letras “piriguetes”, “safadonas”, “cachorronas”; mulheres frutas, que se apresentam em toda forma e tamanho, da mulher-melancia à maça. Rótulos, que em seguida cristalizam-se em epítetos, acabam fazendo sucesso entre o público masculino, e que como eu, termina por resumir e encurtar as pobres mulheres, do seio à genitália; tendo o cérebro como um pontinho solitário no vácuo.
Brincadeirinha!!!
