Vítor Alves | Carlos Ademar

Vítor Alves ficou conhecido como um dos ideólogos do MFA, vindo a desempenhar um papel ativo no pós-revoluçãocomo diplomata, ministro (sem pasta e da educação) e integrando o Conselho da Revolução. Não tendo deixado obra escrita, confiemos na biografia trazida à estampa por Carlos Ademar, que nos devolve o homem por inteiro, o militar e a sua visão política.

Numa fase muito precoce, surge em Vítor Alves a consciência da insustentabilidade da guerra a longo prazo, fruto de um país empobrecido, sem indústria, penalizado por uma forte emigração e pelos ventos da história tão pouco favoráveis à manutenção de um império ultramarino. Em 1969, o esforço de guerra representava 55% do Orçamento de Estado.

Em 1973, ainda antes de ter aderido ao movimento dos capitães, Vítor Alves via como possível um cenário de total independência das, então chamadas, províncias ultramarinas, sem qualquer processo de transição gradual de permeio. Crítico do regime, numa conferência, na Universidade de Aveiro, não hesita em denunciar o carácter dos portugueses, impresso pelos tempos difíceis que se viviam, e que se resumia a umtemor reverencial, vinco de obediência, resignação e reconhecimento. Proferindo a frase: O medo, nas ditaduras, é o cão que guarda a vinha.

Nas academias militares, o ambiente de alguma tolerância à curiosidade permitia o acesso ao que se passava no resto do mundo, no qual, o conhecimento do sucedidona Guerra da Indochina indiciava já qual seria o desfecho histórico para a guerra do ultramar. Em 1972, a revolta estudantil desencadeou a deportação em massa de estudantes para a guerra colonial, permitindo disseminar, entre as forças combatentes, uma consciência política avessa à matriz oficial. Esse divórcio entre os soldados, que já não encontravam sentido para a luta que travavam, e a inalterável posição de Lisboa, tornara impossível uma solução que não passasse por uma fratura com o regime.

Do ímpeto inicial da ordem de Salazar, Para Angola rapidamente e em força, de 1961, na sequência da notícia dos massacres da UPA contra colonos desarmados, já pouco ou nada restava quando, quatro anos depois,o soldado vindo da metrópole não sentia estar a defender o torrão pátrio.  Esgotada jáa possibilidade de uma vitória militar, juntava-se a derrota mais do que certa no terreno diplomático. Não seria difícil para um oficial do exército unir os pontos e ter uma visão lúcida da realidade, mas romper com a ideia de um Portugal Uno e indivisível do Minho a Timor, exigia uma preparação política e histórica que, felizmente, encontraram terreno fértil em Vítor Alves. O general Spínola deu o mote com o livro Portugal e o Futuro, rompendo com um dos princípios basilares do Estado Novo: A Pátria não se discute, defende-se. O debate não mais poderia ser travado.

Na preparação do movimento dos capitães, Vítor Alves, oficial do Estado Maior, rompe com a desconfiança inicial de muitos dos seus camaradas, e desempenha um papel preponderante no consertar todo aquele desconcerto que era o conjunto de oficiais, vindos das mais diversas origens, aportando realismo, moderação e autoridade. Dispunha, para o efeito, de saber, ideias, vontade e paciência para esperar. Percebeu, logo desde o início, que o Movimento dos Capitães seria mais um golpe militar caso não integrasse nas suas linhas programáticas um projeto político. A adesão da população, no dia 25 de Abril, transformou a Alvorada de Abril numa revolução. A partir desse dia esgotara-se o tempo do ideólogo para surgir o do diplomata paciente, persistente e laborioso (como frisa o autor). Desta obra apenas me referi à parte não pública da vida de Vítor Alves, a que antecedeu o 25 de Abril, por ser a menos conhecida e por ser fundamental para perceber a Revolução de Abril e tudo o que se lhe seguiu. Carlos Ademar, em Vítor Alves: O Homem, o Militar, o Político, numa escrita de rigor histórico, deixa-nos o relato da vida e do pensamento de um dos homens que ajudou Portugal a acertar o passo com a História, rompendo com o seu secular cinzentismo, pobreza e falta de arrojo político.

O livro, sendo indiscutível e preocupadamente histórico (e histórico com um elevado nível de quaidade), é também uma biogafia em que, não escamoteando a simpatia pessoal pela personalidade do biografado, o autor preocupado se mostra com a verdade histórica a que dá talentosa expressão.

General Ramalho Eanes, no prefácio.

sobre o livro