(...) «Naquela manhã não lhe abriram a porta. Como tivesse fome, depois de relinchar, relinchar, até lhe doer a goela, pôs-se a catar no estrume as paveias e a farfalha dos sargaços. O Cleto trabucava lá fora e, sentindo-lhe o manejo, idas e vindas, estava indignado e cheio de ferocidade.
À tardinha apareceu finalmente o chilandrão do dono, com a felpa ruça do peito a esflocar-se da camisa rota. Pôs-lhe a cabeçada de corda e ele, esquecendo-se logo do desprezo, deixou-se muito submisso conduzir pelo rabeiro. Na rua, Joana deu-lhe uma côdea de pão e, a passo vagaroso, tomaram os três o caminho do monte, onde cresciam escarapeteiros e outras plantas bravias e as pegas vinham no lume baço da tardinha ensaiar-se em suas saraivadas farândolas. Havia lá cisternas de minas abandonadas, corcovas do desmonte por entre o urgueiral, e, porque sempre se temera de lugares solitários, em sua estranheza, perguntava:
  -- Que diabo vimos para aqui fazer?
Joana caminhava ao lado de Cleto, de mão a apanhar a saia, para que não roçasse a lama.
E ele lambeu-lha, balda velha que ganhara com os mimos que lhe dava, distinguindo-a em sua simpatia da manápula bruta do Cleto. Desta feita a mão terna e blandiciosa, apenas tomada de tremura, acariciou-lhe a estrela corrida da testa, em que nunca deixava de fazer reparo quando se dessedentava nos poceiros. E afagos assim morosos e tristes mais o fizeram desconfiar.
A chuva lavara o céu e nele os perfumes das giestas e da bela-luz pareciam andar boiando, não mais voláteis que nimbos brancos, matinais, à flor dum rio. E, trespassado dos eflúvios, com a fome concentrada, aspirou e arfou regaladamente, como nos atalhos quietos, quando as maias despejavam sobre ele seiras de incenso.
Mas ao passo que ia pela arreata, inebriado, sorvendo o ar, mascava e remascava a sua filosofia suspicaz de vagabundo.
Ao chegar a meio do cabeço, uma poldra passou a correr, veloz, narinas cheias de escuma e clinas ao vento. Corria como um raio, mal tocando a terra e roçando as urzes. E, na peugada, galopava o cavalo branco do moleiro, ridículo, com a carga na barriga, fumegando e arrifando. Homens de cabeça ao léu e aos gritos iam-lhes no rasto.» ...
                                                                                         (continua)

Chilandrão — homem acabado e pobre, alarve.
Farândola — pândega, farraparia, maltrapilhos, dança, azáfama.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

seiras

n substantivo feminino 

1 cesta ou cesto de esparto, junco ou vime, onde se guardam ou transportam frutas

2 Derivação: por extensão de sentido.

cesto de tais materiais us. para o acondicionamento ou transporte de diferentes objetos

3 Regionalismo: Portugal (dialetismo).

cesto de esparto us. para conter as azeitonas moídas no momento de espremê-las no lagar; capacha

sinónimo : ceira

 "Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"