Ambientado em São Paulo, ‘O crime do restaurante chinês’ recupera o começo do século XX na metrópole. O livro, embora de 2009, se torna ainda mais interessante pelo contexto pandêmico de 2020 e 2021, no qual a interseccionalidade racial se tornou tema de discussão.

Sabrina A. Mori*

No livro “O crime do restaurante chinês”, o autor Boris Fausto apresenta uma chacina em um restaurante no centro de São Paulo em 1938. Alvo de grande interesse público ao longo dos 4 anos de suas investigações e seus julgamentos, o crime nunca teve um desfecho e se tornou objeto de interesse para Fausto, que era um menino presenciando os desdobramentos do caso. Mais velho, o autor volta para investigar o caso.

Nascido na cidade do crime, em 1930, Boris Fausto é formado em Direito e História pela Universidade de São Paulo (USP), além de ser professor aposentado do Departamento de Ciência Política da mesma instituição e membro da Academia Brasileira de Ciências. Seu desenvolvimento acadêmico e profissional explica muito de como escreveu seu livro, lançado em 2009, pois é um caso de “micro-história”.

Em uma entrevista concedida ao “Programa do Jô” a respeito da obra, em 19 de maio de 2009, Fausto diferencia a micro-história em relação à macro pelo foco dado aos eventos. Portanto, a micro-história narra um episódio isolado e tenta, a partir dele, demonstrar o contexto vigente em escala maior, demonstrando como os fenômenos gerais acabam escorrendo e embrenhando na ocorrência. Tal escolha também permite que Fausto escreva o livro quase como um romance, equilibrando de maneira espetacular a narração e a mera apresentação dos fatos. Sem se tornar cansativo, “O crime do restaurante chinês” dá a sensação de navegar suavemente entre um livro de ficção e de não-ficção.

Mas é pelo fato de ser um acontecimento verídico que o enredo possui peso inegável. Sua importância é quase tenebrosa por fazer ressurgir a chacina das 4 vítimas: o dono do restaurante, um homem chinês; sua esposa, uma mulher descendente de chineses; um de seus funcionários, imigrante nordestino; e outro de seus funcionários, um imigrante lituano. Os assassinatos aconteceram na noite da terça-feira de carnaval, um cenário que permite muitas possibilidades a serem exploradas, tanto para o autor do livro, quanto para a audiência da época.

Usando o espaço e o tempo como artifícios poderosos, o historiador resgata os acontecimentos de São Paulo nos anos 30 e como eles acabam permeando a percepção pública do caso. Em meio às páginas, o leitor encontra trechos e fotos das notícias da época, assim como letras de músicas que mencionam o caso e se utilizam dele como matéria musical. Para qualquer paulistano, mesmo aqueles mais jovens do que o caso, o resgate histórico feito é de primor nostálgico.

A recuperação do começo do século paulistano, trazendo conceitos de modernidade, avanço tecnológico, eventos e dinâmicas sociais, também é um prato cheio para qualquer um que queira entender o final do período entre guerras e o começo da Segunda Guerra Mundial no Brasil. Além de poder experienciar o que eram os carnavais de rua de São Paulo e a Copa do Mundo passada na França em 1938, aqueles com olhar mais aguçado, podem perceber as influências da Guerra Espanhola em 1936, do golpe do Estado Novo em 1937 (ambos mencionados no livro) e, mais distante, do sentimento paulistano pós-Semana de Arte Moderna de 1922.

É interessante passar das lentes artísticas para as históricas quanto aos eventos, pois havia no movimento modernista a representação da população urbana e trabalhadora e a tentativa esperançosa de busca de identidade brasileira, o que entra em certo conflito com o panorama de imigração em massa apresentado por “O crime do restaurante chinês” (apesar de não serem representantes dos maiores fluxos migratórios paulistas) e as eminências da Segunda Guerra Mundial, fora, óbvio, a violência demonstrada no crime e na sua repercussão.

Violência quanto à repercussão porque há no livro as observações de como havia notícias sensacionalistas sobre o crime. Há outras ressalvas sobre a percepção da população chinesa e sobre a retratação do principal suspeito, Arias de Oliveira, um homem negro que também fora funcionário no restaurante. As notícias apresentadas, assim como as fotos do crime e de arquivos de investigação são interessantes e alimentam a curiosidade do leitor, que se vê em um movimento similar ao público contemporâneo ao crime, contudo é aí que começam as problemáticas raciais que parecem ser criticadas e reproduzidas pela obra.

Em “Vênus em dois atos”, Saidiya Hartman explora o narrar sobre negros históricos. Um dos tópicos abordados pela autora é que, na tentativa de recontar a História há, em certo grau, a repercussão da violência fatídica. Os personagens descritos sofrem outra vez as violências cometidas contra eles e são expostos para a leitura (e reprodução) dos castigos. Hartman trata, em específico, a respeito da escravidão negra, contudo, em “O crime do restaurante chinês” há também (de modo mais sutil) essa reprodução. Um exemplo mais evidente é o corpo nu de Arias escancarado nas páginas amarelas do meio do livro, sem ressalva alguma e sem permissão dele.

Apesar de ter sido inocentado por 3 vezes, a própria obra não dá veredito final sobre a responsabilidade de Arias no caso. Em paradoxo, a acusação e a defesa no decorrer do julgamento foram carregadas de evidências e argumentos raciais. As investigações policiais parecem, principalmente para o leitor de 2021, racistas e agressivas, os argumentos positivistas não eram o que se considera, na atualidade, “politicamente corretos”. E eles funcionam como lembrete do quanto o tempo atual está próximo do positivismo e o quanto o modernismo progressista, assim como o liberalismo, está próximo da escravidão brasileira. Em 1938, vale a ressalva, haviam se passado apenas 50 anos da abolição. Quanto à defesa, na página 159 do livro (5ª reimpressão da Companhia das Letras), existe o trecho “Vindo sempre em socorro do réu, o dr. Pacheco e Silva [perito que rebateu as provas apresentadas] faz afirmações racistas, mas de um racismo paradoxal, porque contribuem extraordinariamente para lançar dúvidas sobre a validade dos testes”.

Boris Fausto apresenta então um cenário racial delicado e complexo. Ao relacionar o ícone futebolístico da Copa de 38, Leônidas da Silva, chamando-o de “diamante negro”, com a percepção do acusado pelo crime, o autor admite que a conexão pode ser fraca, mas talvez o surgimento do astro tenha mudado o caráter de Arias através dos olhos paulistanos e contribuido no julgamento. Porém, há também o fato de que, nas 3 vezes, o júri a favor de Arias foi apenas 1 voto de distância do júri contra. Sem apontar nada ou fazer uma avaliação social, os problemas raciais que entremeiam a narrativa podem passar batido para um leitor que não está relacionado com tais questões e que não sabe de teorias sociais a respeito. Para quem possui o panorama crítico, a perspectiva de Hartman levanta questões importantes para a obra de Fausto.

O livro, embora de 2009, se torna ainda mais interessante pelo contexto pandêmico de 2020 e 2021, no qual a interseccionalidade racial se tornou tema de discussão principalmente pela grande repercussão de acontecimentos nos Estados Unidos, entretanto, que não deixam de ser realidade no Brasil. Durante o período, foi observado a violência contra negros e contra amarelos, como ambas acontecem de maneira distinta e simultaneamente servem a favor dos engendramentos sociais brancos da cultura ocidental. Se visto dessa forma, “O crime do restaurante chinês” apresenta um caso de funcionamento entre os amarelos e os negros e como a população reage à esses grupos. De maneira mais aprofundada, o caso pode ser analisado em aplicação às teorias raciais, contudo a dinâmica não chega a ser mencionada no livro.

Tanto o racismo quanto a xenofobia apresentados pela população não são fenômenos nomeados, apesar de serem levantados no livro. De modo similar com o qual desliza entre “narrativa” e “contestação”, a obra mostra acontecimentos de tais naturezas, mas sem denominá-los como tal, no que pode ser uma tentativa de deixar em aberto para o leitor tirar suas conclusões, o que é compreensível dado que, no contexto do lançamento de “O crime do restaurante chinês”, as teorias raciais e as discussões desse cunho não eram propagadas, muito menos comuns.

A forma mais direta de “acusação da xenofobia e do racismo vigentes” se encontra principalmente nos parágrafos finais da obra: “Se as vítimas fossem pessoas ricas ou prestigiosas da sociedade, por exemplo, paulistas de quatrocentos anos, ou imigrantes enriquecidos, e não chineses, estrangeiros pobres e um nordestino, teria sido outra a decisão do júri? Muito provavelmente”, levantando o questionamento ideal para o leitor, contudo, de uma forma tão sutil que não parece ser suficiente para a complexidade da sociedade retratada e que deixa uma chacina tão violenta ser um mistério não resolvido mesmo após tantas décadas.

De qualquer maneira, “O crime no restaurante chinês” é um livro viciante, uma ótima introdução para aquele que não se interessa por obras históricas ou verídicas, sendo uma leitura fluída e rápida, que condensa detalhes sem se tornar tediosa e tenta esmiuçar uma São Paulo indecisa, vívida e cheia de personalidade. Mesmo depois de 12 anos de sua publicação, continua sendo uma leitura informativa e perspicaz, que pode ser o início para o entendimento da sociedade brasileira no começo do século.

*Escritora e graduanda em Letras pela FFLCH-USP.