04

Mar11

Maria do Rosário Pedreira

Foi há cinquenta anos que começou a guerra colonial e foram precisos muitos anos depois do seu fim para que se começasse a escrever e publicar ensaio e literatura sobre o tema. Um dia destes estava a ler o segundo romance de Paulo Bandeira Faria ainda em fase de rascunho e lembrei-me de que o seu livro anterior, que publiquei há uns quatro anos, foi um dos primeiros que abordavam a temática da guerra colonial sem complexos de culpa e de forma descomprometida. Intitula-se As Sete Estradinhas de Catete e conta a história de Guilherme, filho de um oficial da Força Aérea, que cresce em Angola e assiste não só ao desmoronar da sua família como ao desmoronar do império e ao princípio da guerra civil, com uma mudança de comportamento gritante entre velhos «amigos» brancos e negros. Aproveitando a personagem da criança para narrar através de um olhar descomplexado as agruras do antes e do depois, este é um romance que combina uma certa candura com a violência mais inesperada. A ler, absolutamente, cinquenta anos depois dos primeiros acontecimentos que geraram uma guerra que durou anos demais.