Em cena do filme “Coisas para fazer em Denver quando você está morto”, o personagem de Andy Garcia (Jimmy “The Saint” Tosnia) cumprimenta os seus amigos com a expressão: “boat drinks”. No decorrer do filme, ele explica: quando deseja “boat drinks” , tem a expectativa de que, no futuro, possa sentar com os amigos em um iate, encher os seus copos com drinques, sentar e conversar sobre como eles se sentiram angustiados no passado – e como todo aquele medo e instabilidade tinham sumido. O Paraíso seria tomar drinques em um iate, longe das preocupações mundanas. “Boat drinks” é um desejo – e uma esperança – de que coisas melhores acontecerão. É a promessa de que, um dia, riremos de todas as aflições. Às vezes, quando os problemas parecem insolúveis, quando o nível de preocupação chega a patamares tenebrosos, eu me refugio nesta expressão. Boat drinks. Um dia, rirei disto tudo. Um dia, olharei o passado e pensarei “nossa, eu estava tão nervoso naquele dia, e tudo acabou se resolvendo”. Pois, assim como ocorre na ficção, os problemas acabam encontrando maneiras estranhas de serem resolvidos. Se a resolução ainda não aconteceu, é por que o problema ainda não chegou ao fim. E é interessante, mas as soluções mais simples e práticas são aquelas que acabam ocorrendo, por mais improváveis que pareçam. “Boat drinks” é um mantra, um lembrete de que tudo terá fim – inclusive a própria pessoa. O que nos parece ser um problema insolúvel não é nada na vida de uma abelha ou na de uma formiga. De certa maneira, “boat drinks” é um pensamento estoico; quando colocamos os problemas dentro da esfera da sua real importância e pensamos nos problemas ao redor do mundo, percebemos que os nossos não são tão sérios quanto pareciam à primeira vista. Por este motivo, mesmo parcialmente abstêmio (beber em ocasiões festivas e uma que outra taça de vinho ou espumante), eu sonho com o dia em que, dentro de um barco, reunido com meus amigos, ergueremos brindes ao sol e nos desejaremos “boat drinks!”. Nos olhos deles, verei que os problemas desapareceram, verei que as trevas e as indecisões e os medos ficaram para trás. “Boat drinks” é uma utopia – por isto é tão bom sonhar com este dia. Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo