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| Fotografia da minha autoria |
Tema: Um livro só com uma palavra no título
Avisos de Conteúdo: Referência a Morte, Demência; Linguagem Explícita
O traço de uma vida comum parece desinteressante, mas até a banalidade tem um certo fascínio, porque nem tudo é o que aparenta ser. Reconheço, porém, que também importa que se saiba escrever sobre ela e é por isso que Dulce Maria Cardoso se reveste de brilhantismo: porque disseca o que é normal como mais ninguém.
ELIETE COMO TODOS NÓS
Eliete, cuja protagonista empresta o nome ao título, é a história de uma mulher de meia idade, que se movimenta num quotidiano pacato, trivial - pelo menos, assim se assemelha. No entanto, tal como uma brisa subtil, que não incomoda, há um vendaval que se vai aproximando. E mesmo que pouco aponte nesse sentido, ficamos presos aos seus contornos, a esse prenuncio de fatalidade prestes a mudar o rumo da personagem.
«Gostava dos ecrãs dos telemóveis, da existência de sítios onde as palavras
podiam ser tão facilmente destruídas como criadas. Sem deixar marcas»
É fácil reconhecermos algumas rotinas, dúvidas, anseios e desamores, talvez pela simplicidade com que Eliete se apresenta, induzindo-nos em erro. Afinal, o que é que o seu - sempre presente - processo de luto, a relação com a avó, o casamento morno e a formalidade com as filhas podem acrescentar de novo? Tudo! Porque, por ser um retrato tão credível, estabelece uma análise profunda sobre o ser humano e os vários tipos de relações.
«A nossa família era um puzzle complicado com muitas peças em falta»
Embora não me tenha sentido representada em vários dos seus dilemas, por estarmos em fases distintas e por haver tanto dos nossos contextos que se distancia, consegui identificá-la noutras casas, noutros rostos. Além disso, é através da voz desta mulher que a autora aborda temas tão atuais como o envelhecer nesta era digital ou as aplicações de encontros. Portanto, conscientes que Eliete poderia ser qualquer um de nós, entramos em sua casa para lhe seguirmos os passos e ocultarmos os seus segredos - assumindo, então, uma vida paralela.
«Na verdade, o riso parecia das poucas coisas do nosso corpo
que o tempo de uma vida não era suficiente para estragar»
Eliete é feita de uma solidão profunda, que provoca mudanças que ninguém parece notar, o que comprova o quanto vivemos em bolhas afastadas. E é por esse motivo que se torna palpável a necessidade de validação, o silêncio e a certeza da não pertença. Com um final surpreendente, mal posso esperar pela segunda parte.
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