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    Joaquim Jordão 20.10.2012

    Corro o risco.

    Como digo acima, enviei-lhe uma mensagem no dia em que, afinal, ele tinha sido hospitalizado.

    Corro o risco de parecer pretensioso, por causa daquele meu mail que ele, portanto, não terá lido.

    Por outro lado, as mensagens pendentes eram uma sua preocupação. “Vê se há mensagens…”.

    E – que hei-de fazer? – este é um dos seus poemas que me marcou desde que se cruzou comigo.

    Por causa, por exemplo, desta parte: “(…) Senhor, permite que algo permaneça, / alguma palavra ou alguma lembrança, / que alguma coisa possa ter sido / de outra maneira, / não digo a morte, nem a vida, / mas alguma coisa mais insubstancial (…)”.

    Mas pelo seu todo.

    Tenho este poema guardado na pasta de ficheiros “Versos/ escolhidos a dedo”. É daí que, correndo o risco, o transcrevo.

    Porque é uma mensagem dele para nós, que não podemos correr o risco de deixar pendente.

    “Vê se há mensagens

    no gravador de chamadas;
    rega as roseiras;
    as chaves estão
    na mesa do telefone;
    traz o meu
    caderno de apontamentos
    (o de folhas
    sem linhas, as linhas distraem-me).
    Não digas nada
    a ninguém,
    o tempo, agora,
    é de poucas palavras,
    e de ainda menos sentido.
    Embora eu, pelos vistos,
    não tenha razão de queixa.
    Senhor, permite que algo permaneça,
    alguma palavra ou alguma lembrança,
    que alguma coisa possa ter sido
    de outra maneira,
    não digo a morte, nem a vida,
    mas alguma coisa mais insubstancial.
    Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
    o medo e a esperança,
    a urze e o salgueiro,
    os meus heróis e os meus livros?
    Agora o meu coração
    está cheio de passos
    e de vozes falando baixo,
    de nomes passados
    lembrando-me onde
    as minhas palavras não chegam
    nem a minha vida
    Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.”

    Manuel António Pina, Cuidados Intensivos (1994)