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«Um tributo a uma vida vivida em pleno»

Avisos de Conteúdo: Morte, Luto

Os livros não se medem aos palmos. E o impacto das suas narrativas nunca será diretamente proporcional ao número de páginas, porque existem autores com o dom de transcreverem o mundo através de poucas palavras. É na síntese que elevam as emoções, tal como acontece neste livro de Chimamanda Ngozi Adichie.

INTENSO E COMOVENTE

Notas Sobre o Luto é um testemunho verídico, que espelha a dor motivada pela perda súbita do pai, em 2020, em plena pandemia. E se racionalizar a morte de alguém que nos é próximo, para nos tornarmos funcionais perante burocracias, já é bastante desumano, nem consigo classificar o facto de se ter de lidar com toda a situação por vídeochamada. Parece que se ergue um muro impessoal, agravado pelas restrições em vigor.

«A notícia é como um desenraizamento brutal. Sou arrancada 

à força do mundo que conhecia desde a infância»

A obra lê-se, no máximo, num par de horas, se formos parando para assimilar cada partilha. Não obstante, descobre-se num sopro, porque se reveste de desabafos e de divagações; porque demonstra a necessidade que Chimamanda tem de contar tudo de rajada: não para despachar e encerrar este capítulo cruel, mas para que nunca se perca a memória e os feitos do seu pai. E este amor não só é palpável, como também é transversal a cada leitor. Mesmo que as nossas experiências de vida sejam distintas e o nosso processo de luto não encontre elos comuns, todos nós sabemos decifrar o vazio que fica e que se prolonga no tempo.

«Como é possível o mundo continuar em movimento, a inspirar e expirar, inalterado, 

enquanto na minha alma se instalou uma dispersão permanente?»

Os textos são intensos e comoventes, abrindo-nos a porta de um registo mais intimista. Assim, deambulando por diversos temas, fazemos uma viagem pela mágoa, pela resiliência, pela negação e pela homenagem. Notas Sobre o Luto é de uma honestidade impossível de esquecer, porque há memórias que não suplantam o sofrimento, mas que amenizam a dor, permitindo eternizar as pessoas da nossa vida e, desta forma, continuar - incompletos, é certo, mas com um propósito diferente, porque encontraremos sempre forma de estarmos perto.

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